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MINISTÉRIO
DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO
CONSELHO
NACIONAL DE EDUCAÇÃO
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INTERESSADO/MANTENEDORA
Conselho
Nacional de Educação – Câmara de Educação
Básica
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ASSUNTO:
Diretrizes Curriculares Nacionais Para O Ensino Médio
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RELATORA:
Conselheira Guiomar Namo de Mello
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PROCESSO:
23001.000309/97-46
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PARECER:
No CEB 15/98
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APROVADO
EM 01/06/98
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I.
RELATÓRIO
1.
Introdução
Pelo
Aviso 307 de 07/07/97 o Ministro da Educação e do
Desporto encaminhou, para apreciação e deliberação
da Câmara de Educação Básica (CEB) do
Conselho Nacional de Educação (CNE), o documento que
apresenta propostas de regulamentação da base curricular
nacional e de organização do ensino médio.
A iniciativa do Senhor Ministro ao enviar o referido documento,
não visou apenas cumprir a lei, que determina ao MEC elaborar
a proposta de diretrizes curriculares para deliberação
do Conselho, mas também estimular o debate em torno do tema
no âmbito deste colegiado e da comunidade educacional aqui
representada.
No
esforço para responder à iniciativa do Ministério
da Educação e do Desporto (MEC), a CEB/CNE viu-se
assim convocada a ir além do cumprimento estrito de sua função
legal. Procurou dessa forma recolher e elaborar as visões,
experiências, expectativas e inquietudes em relação
ao ensino médio que hoje estão presentes na sociedade
brasileira, especialmente entre seus educadores, a maior parte das
quais coincidem com os pressupostos, idéias e propostas do
documento ministerial.
O
presente parecer é fruto portanto da consulta a muitas e
variadas vertentes. A primeira delas foram, desde logo, os estudos
procedidos pelo próprio MEC, por intermédio da Secretaria
de Ensino Médio e Tecnológico (SEMTEC), que respondem
pela qualidade técnica da proposta encaminhada ao Conselho
Nacional de Educação. Esses estudos, bem como os especialistas
que os realizaram, foram colocados à disposição
da CEB, propiciando uma rica fonte de referências.
Os
princípios pedagógicos discutidos na quarta parte,
visam traduzir o que já estava presente na proposta ministerial,
dando indicações mais detalhadas do tratamento a ser
adotado para os conteúdos curriculares. Da mesma forma, as
áreas apresentadas para a organização curricular
não diferem substancialmente daquelas constantes do documento
original, ainda que antecedidas por considerações
psico pedagógicas de maior fôlego.
O
resultado do trabalho da CEB consubstanciado neste parecer, está
assim em sintonia com o documento encaminhado pelo MEC e integra-se,
como parte normativa, às orientações constantes
dos documentos técnicos preparados pela SEMTEC. Estes últimos,
com recomendações sobre os conteúdos que dão
suporte às competências descritas nas áreas
de conhecimento estabelecidas no parecer, bem como sobre suas metodologias,
deverão complementar a parte normativa para melhor subsidiar
o planejamento curricular dos sistemas e de suas escolas de ensino
médio.
Quando
iniciou o exame sistemático das questões do ensino
médio, a pauta da CEB já contabilizava avançado
grau de amadurecimento em torno do tema das diretrizes curriculares
para o ensino fundamental (DCNs), elaboradas ao longo de 1997. Estas
últimas, por sua vez, iniciaram-se quando da apreciação
pela CEB, dos Parâmetros Curriculares Nacionais recomendados
pelo MEC para as quatro primeiras séries da escolaridade
obrigatória.
O
trabalho desta relatoría beneficiou-se dessa forma do trabalho
realizado pela CEB para formular as DCNs, no tocante a três
aspectos que são detidamente examinados no texto: o conceito
de diretrizes adotado pela legislação e seu significado
no momento atual; o papel do Conselho Nacional de Educação
(CNE) na regulamentação dessa matéria; e os
princípios estéticos, políticos e éticos
que inspiram a LDB e, por conseqüência, devem inspirar
o currículo. A decisão da CEB em deter-se mais longamente
neste terceiro aspecto deve-se, em grande medida, ao consenso construído,
durante a discussão das DCNs, em torno desses princípios
que, por serem seu produto, nelas aparecem menos desenvolvidos.
Os
temas específicos do ensino médio, a maioria deles
polêmicos, foram exaustivamente escrutinados pela CEB nas
sucessivas versões deste parecer. Esse trabalho coletivo
materializou-se em contribuições escritas, comentários,
sugestões, indicações bibliográficas,
que foram incorporadas ao longo de todo o parecer. A riqueza da
contribuição dos conselheiros, que em muitos casos
trouxeram visões e experiências de seus próprios
espaços de atuação, foi inestimável
para esclarecer a todos – sobretudo a esta relatoria – a complexidade
e importância das normas que o parecer deve fundamentar.
Outra
vertente importante do presente parecer foram as contribuições
brasileiras e estrangeiras, no seminário internacional de
políticas de ensino médio organizado pelo Conselho
Nacional de Secretários Estaduais de Educação
(CONSED, em colaboração com a Secretaria de Educação
de São Paulo, em 1996. Essa iniciativa ampliou a compreensão
da problemática da etapa final de nossa educação
básica, examinada à luz do que vem se passando com
a educação secundária na Europa, América
Latina e Estados Unidos da América do Norte. Sua importância
foi tanto maior quanto mais débil é a tradição
brasileira de ensino médio universalizado.
Finalmente
é preciso mencionar as contribuições, críticas
e sugestões da comunidade educacional brasileira. Estas foram
apresentadas nas duas audiências públicas organizadas
pelo CNE, na reunião de trabalho com representantes dos órgãos
normativos e executivos dos sistemas de ensino estaduais, e nas
várias reuniões, seminários e debates em que
as versões em discussão do texto foram apresentadas
e apreciadas.
Em
todas essas oportunidades, a participação solidária
de muitas entidades educacionais, foi decisiva para aprofundar a
fundamentação teórica dos pressupostos e princípios
presentes tanto no documento original do MEC, quanto no presente
parecer. Entre essas entidades, situam-se a Associação
Nacional de Pós Graduação em Educação
(ANPEd), a Confederação Nacional de Trabalhadores
da Educação (CNTE), o CONSED, o Fórum dos Conselhos
Estaduais de Educação, a União Nacional de
Dirigentes Municipais de Educação, as universidades
públicas e privadas, as associações de escolas
particulares de ensino médio, as instituições
do Sistema S (SENAI, SENAC, SENAR), a SEMTEC, as escolas técnicas
federais.
À
presença qualificada de tantas instituições
da comunidade educacional no debate que antecedeu este parecer,
deve ser acrescida a contribuição individual e anônima
de inúmeros educadores brasileiros cujos trabalhos escritos,
sugestões, críticas e questionamentos, ajudaram no
esforço de realizar a maior aproximação possível
entre as recomendações normativas e as expectativas
daqueles que, em última instância, serão responsáveis
pela sua implementação.
Além
de reconhecer a todos quantos contribuíram para a formulação
da nova organização curricular para o ensino médio
brasileiro, estas menções visam indicar o processo
de consultas que, com a amplitude permitida pelas condições
do país e as circunstâncias da Câmara de Ensino
Básico do Conselho Nacional de Educação, recolheu
o esforço e o consenso possíveis deste período
tão decisivo para nosso desenvolvimento educacional.
2. Diretrizes
Curriculares: O Papel do Conselho Nacional de Educação
Assim,
ninguém discutiria que o legislador deve ocupar-se sobretudo
da educação dos jovens. De fato, nas cidades onde
não ocorre assim, isso provoca danos aos regimes, uma vez
que a educação deve adaptar-se a cada um deles: pois
o caráter particular a cada regime não apenas o preserva,
como também o estabelece em sua origem; por exemplo, o caráter
democrático engendra a democracia e o oligárquico
a oligarquia, e sempre o caráter melhor é causante
de um regime melhor.
Fica
claro portanto que a legislação deve regular a educação
e que esta deve ser obra da cidade. Não se deve deixar no
esquecimento qual deve ser a educação e como se há
de educar. Nos tempos modernos as opiniões sobre este tema
diferem. Não há acordo sobre o que os jovens devem
aprender, nem no que se refere à virtude nem quanto ao necessário
para uma vida melhor. Tão pouco está claro se a educação
deveria preocupar-se mais com a formação do intelecto
ou do caráter. Do ponto de vista do sistema educativo atual
a investigação é confusa, e não há
certeza alguma sobre se devem ser praticadas as disciplinas úteis
para a vida ou as que tendem à virtude, ou as que se sobressaem
do ordinário (pois todas elas têm seus partidários).
No que diz respeito aos meios que conduzem à virtude não
há acordo nenhum (de fato não honram, todos, a mesma
virtude, de modo que diferem logicamente também sobre seu
exercício).
Aristóteles,
Política, VIII, 1 e 2
2.1
Obrigatoriedade Legal e Consenso Político
A
Lei 9394/96 que Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDB), prevê em seu artigo 9 inciso IV, entre as
incumbências da União, estabelecer, em colaboração
com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, competências
e diretrizes para a educação infantil, o ensino
fundamental e o ensino médio, que nortearão os currículos
e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação
básica comum.
Essa
incumbência que a lei maior da educação atribui
à União reafirma dispositivos legais anteriores, uma
vez que já em 1995 a Lei 9131, que trata do Conselho Nacional
de Educação (CNE), define em seu artigo 9 parágrafo
c, entre as atribuições da Câmara de Educação
Básica (CEB) desse colegiado, deliberar sobre as diretrizes
curriculares propostas pelo Ministério da Educação
e do Desporto. A mencionada incumbência da União
estabelecida pela LDB deve efetuar-se assim por meio de uma divisão
de tarefas entre o MEC e o CNE.
No
entanto, apesar de delegar ao executivo federal e ao CNE o estabelecimento
de diretrizes curriculares, a LDB não quis deixar passar
a oportunidade de ser, ela mesma, afirmativa na matéria.
Além daquelas indicadas para a educação básica
como um todo no artigo 27, diretrizes específicas para os
currículos do ensino médio, constam do Artigo 36 seus
incisos e parágrafos.
A
este Conselho cabe assim tomar decisões sobre matéria
que já está explicitamente indicada no diploma legal
mais abrangente da educação brasileira o que imprime
às Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio
(DCNEM), objeto do presente Parecer e Deliberação,
significado e magnitude específicas.
Diretriz
refere-se tanto a direções físicas quanto a
indicações para ação. Linha reguladora
do traçado de um caminho ou de uma estrada, no primeiro
caso, conjunto de instruções ou indicações
para se tratar e levar a termo um plano, uma ação,
um negócio, etc., no segundo caso. Enquanto linha que
dirige o traçado da estrada a diretriz é mais perene.
Enquanto indicação para a ação ela é
objeto de um trato ou acordo entre as partes e portanto sujeita
a revisões mais freqüentes.
Utilizando
a analogia pode-se dizer que as diretrizes da educação
nacional e de seus currículos estabelecidas na LDB, correspondem
à linha reguladora do traçado que indica a direção,
e devem ser mais duradouras. Sua revisão, ainda que possível,
exige a convocação de toda sociedade representada
no Congresso Nacional. Por tudo isso são mais gerais, refletindo
a concepção prevalecente na Constituição
sobre o papel do Estado Nacional na educação. As diretrizes
deliberadas pelo CNE estarão mais próximas da ação
pedagógica, são indicações para um acordo
de ações e requerem revisão mais freqüente.
A
expressão "diretrizes e bases" foi objeto de várias
interpretações ao longo da evolução
da educação nacional. Segundo Horta a interpretação
dos educadores liberais para a expressão diretrizes e
bases durante os embates da década de 40, contrapunha-se
à idéia autoritária e centralizadora de que
a União deveria traçar valores universais e "preceitos
diretores" , para a educação nacional. Segundo
o autor, para os liberais… "Diretriz" é a linha
de orientação, norma de conduta. "Base"
é superfície de apoio, fundamento. Aquela indica a
direção geral a seguir, não as minudências
do caminho. Esta significa o alicerce do edifício, não
o próprio edifício que sobre o alicerce será
construído. Assim entendidos os termos, a Lei de Diretrizes
e Bases conterá tão-só preceitos genéricos
e fundamentais.
Na
Constituição de 1988, a introdução de
competência de legislação concorrente
em matéria educacional para estados e municípios,
reforça o caráter de "preceitos genéricos"
das normas nacionais de educação. Fortalece-se assim
o federalismo pela ampliação da competência
dos entes federados, promovida pela descentralização.
Oito
anos depois a LDB confirma e dá maior conseqüência
a esse sentido descentralizador, quando afirma, no parágrafo
2o de seu Artigo 8o: Os sistemas de ensino
terão liberdade de organização nos termos desta
Lei. Mais ainda, adotando a flexibilidade como um de seus eixos
ordenadores, a LDB cria condições para que a descentralização
seja acompanhada de uma desconcentração de decisões
que a médio e longo prazo permita às próprias
escolas construírem "edifícios" diversificados
sobre a mesma "base".
E
indica explicitamente essa desconcentração em pelo
menos dois momentos: no Artigo 12 quando inclui a elaboração
da proposta pedagógica e a administração de
seus recursos humanos e financeiros entre as incumbências
dos estabelecimentos de ensino; e no Artigo 15 quando afirma: Os
sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares
públicas de educação básica que os integram
progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa
e de gestão financeira, observadas as normas gerais de direito
financeiro público.
Mas
ao mesmo tempo, a Constituição e a legislação
que a seguiu, permanecem reafirmando que é preciso garantir
uma base comum nacional de formação. A preocupação
constitucional é indicada no Artigo 210 da Carta Magna: Serão
fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental,
de maneira a assegurar formação básica comum
e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais
e regionais.
A
Lei 9131/95 e a LDB ampliam essa tarefa para toda a educação
básica e delegam, em caráter propositivo ao MEC e
deliberativo ao CNE, a responsabilidade de trazer as diretrizes
curriculares da LDB para um plano mais próximo da ação
pedagógica, para dar maior garantia à formação
nacional comum.
É
portanto no âmago da tensão entre o papel mais centralizador
ou mais descentralizador do Estado Nacional que se situa a tarefa
da Câmara de Educação Básica do CNE ao
estabelecer as diretrizes curriculares para o ensino médio.
Cumprindo seu papel de colocar as diferentes instâncias em
sintonia, elas terão que potencializar aquela tensão
para lograr equilíbrio entre diretrizes nacionais e proposta
pedagógica da escola, mediada pela ação executiva,
coordenadora e potencializadora dos sistemas de ensino.
Essa
concepção resgata a interpretação federalista
que foi dada ao termo diretriz na Constituinte de 1946. Não
deixa sem acabamento o papel da União, mas o redefine como
iniciativa de um acordo negociado sob dois pressupostos. O primeiro
diz respeito à natureza da doutrina pedagógica, sempre
sujeita a questionamentos e revisões. O segundo refere-se
à legitimidade do CNE, como organismo de representação
específica do setor educacional e apto a interagir com a
comunidade que representa.
É
esse o sentido que Cury dá às diretrizes curriculares
para a educação básica deliberadas pela CEB
do CNE: Nascidas do dissenso, unificadas pelo diálogo,
elas não são uniformes, não são toda
a verdade, podem ser traduzidas em diferentes programas de ensino
e, como toda e qualquer realidade, não são uma forma
acabada de ser.
Vale
dizer que a legitimidade do CNE quando, ao fixar diretrizes curriculares,
intervém na organização das escolas, se está
respaldada nas funções que a lei lhe atribui, subordina-se
aos princípios das competências federativas e da autonomia.
Por outro lado, a competência dos entes federados e a autonomia
pedagógica dos sistemas de ensino e suas escolas, será
exercida de acordo com as diretrizes curriculares nacionais.
Nessa
perspectiva, a tarefa do CNE no tocante às DCNEM, se exerce
visando três objetivos principais:
- sistematizar
os princípios e diretrizes gerais contidos na LDB;
- explicitar
os desdobramentos desses princípios no plano pedagógico
e traduzi-los em diretrizes que contribuam para assegurar a
formação básica comum nacional;
- dispor
sobre a organização curricular da formação
básica nacional e suas relações com a parte
diversificada, e a formação para o trabalho.
Estas
DCNEM não pretendem portanto ser as últimas, porque
no âmbito pedagógico nada encerra toda a verdade, tudo
comporta e exige contínua atualização. Enquanto
expressão das diretrizes e bases da educação
nacional serão obrigatórias uma vez aprovadas e homologadas.
Enquanto contribuição de um organismo colegiado, de
representação convocada, sua obrigatoriedade não
se dissocia da eficácia que tenham como orientadoras da prática
pedagógica e subordina-se à vontade das partes envolvidas
no acordo que representam.
A
título de conclusão, e usando de licença poética
incomum nos documentos deste Conselho, as DCNEM poderiam ser comparadas
a certo objeto efêmero cantado pelo poeta: não podem
ser imortais porque nascidas da chama indispensável a qualquer
afirmação pedagógica. Mas espera-se que sejam
infinitas enquanto durem.
2.2
Educação Pós Obrigatória No Brasil:
Exclusão A Ser Superada
Até
o presente, a organização curricular do ensino médio
brasileiro teve como referência mais importante os requerimentos
do exame de ingresso à educação superior.
A
razão disso, fartamente conhecida e documentada, pode ser
resumida muito simplesmente: num sistema educacional em que poucos
conseguem vencer a barreira da escola obrigatória, os que
chegam ao ensino médio destinam-se em sua maioria aos estudos
superiores para terminar sua formação pessoal e profissional.
Mas essa situação está mudando e vai mudar
ainda mais significativamente nos próximos anos.
A
demanda para ascender a patamares mais avançados do sistema
de ensino é visível na sociedade brasileira. Essa
ampliação de aspirações decorre não
apenas da urbanização e modernização
consequentes do crescimento econômico como de uma crescente
valorização da educação como estratégia
de melhoria de vida e empregabilidade. Dessa forma, aquilo que no
plano legal foi durante décadas estabelecido como obrigação,
passa a integrar, no plano político, o conjunto de direitos
da cidadania.
O
aumento ainda lento, mas contínuo, dos que conseguem concluir
a escola obrigatória, associado à tendência
para diminuir a idade dos concluintes, vai permitir a um número
crescente de jovens ambicionar uma carreira educacional mais longa.
Por outro lado, a demanda por ensino médio vai também
partir de segmentos já inseridos no mercado de trabalho que
aspiram melhoria salarial e social e precisam dominar habilidades
que permitam assimilar e utilizar produtivamente recursos tecnológicos
novos e em acelerada transformação.
No
primeiro caso são jovens que aspiram melhores padrões
de vida e de emprego. No segundo são adultos ou jovens adultos,
via de regra mais pobres e com vida escolar mais acidentada. Estudantes
que aspiram trabalhar, trabalhadores que precisam estudar, a clientela
do ensino médio tende a tornar-se mais heterogênea,
tanto etária quanto socio-economicamente, pela incorporação
crescente de jovens e jovens adultos originários de grupos
sociais até o presente sub-representados nessa etapa da escolaridade.
As
estatísticas recentes confirmam essa tendência. Desde
meados dos anos 80 foi no ensino médio que se observou o
maior crescimento de matrículas no país. De 1985 a
1994 esse crescimento foi em média de mais de 100%, enquanto
no ensino fundamental foi de 30%.
A
hipótese de que a expansão quantitativa vem ocorrendo
pela incorporação de grupos sociais até então
excluídos da continuidade de estudos após o fundamental,
fica reforçada quando se observa o padrão de crescimento
da matrícula: concentrado nas redes públicas e, nestas,
predominantemente nos turnos noturnos, que representaram 68% do
aumento total. No mesmo período (85 a 94) a matrícula
privada, que na década anterior havia crescido 33%, apresentou
um aumento de apenas 21%.
Se
o aumento observado da matrícula já preocupa os sistemas
de ensino, a situação é muito mais grave quando
se considera a demanda potencial. O Brasil continua apresentando
a insignificante taxa líquida de 25% de escolaridade da população
de 15 a 17/18 anos no ensino médio. Outros tantos dessa faixa
etária, embora no sistema educacional, ainda estão
presos na armadilha da repetência e do atraso escolar do ensino
fundamental.
Considerando
que o egresso do ensino fundamental tem permanecido, em média,
onze e não oito anos na escola, a correção
do fluxo de alunos desse nível, se bem sucedida, vai colocar
às portas do ensino médio um grande número
de jovens cuja expectativa de permanência no sistema já
ultrapassa os oito anos de escolaridade obrigatória.
A
expectativa de crescimento do ensino médio é ainda
reforçada pelo fenômeno chamado onda de adolescentes
identificado em recentes estudos demográficos: De fato,
enquanto a geração dos adolescentes de 1990 era numericamente
superior à geração de adolescentes de 1980
em 1 milhão de pessoas, as gerações de adolescentes
em 1995 e 2000 serão maiores do que as gerações
de 1985 e 1990 em 2.3 e 2.8 milhões de pessoas, respectivamente.
No ano 2005, este incremento cairá para o nível de
500 mil pessoas, caracterizando o fim desta onda de adolescentes.
Mesmo
considerando o gradativo declínio do número de adolescentes,
caracterizado pela mencionada "onda", os números
absolutos são enormes e dão uma idéia mais
precisa do desafio educacional que o país enfrentará.
Pela contagem da população realizada em 1996 (IBGE),
em 1999 o Brasil terá 14.300.448 pessoas com idade entre
15 e 18 anos. Esse número cairá para a casa dos 13
milhões a partir de 2001, e para a casa dos 12 milhões
a partir de 2007. No início da segunda década do próximo
milênio (2012), depos de o fenômeno da onda de adolescentes,
o país ainda terá 12.079.520 jovens nessa faixa etária.
Contam-se
portanto em números de oito dígitos os cidadãos
e cidadãs brasileiras a quem será preciso oferecer
alternativas de educação e preparação
profissional para facilitar suas escollhas de trabalho, de normas
de convivência, de formas de participação na
sociedade. E quanto mais melhorar o desempenho do ensino fundamental
mais esse desafio se concentrará no ensino médio.
Essa
tendência já pode ser observada, conforme prossegue
o estudo da Fundação SEADE: Em 1992, cerca de 64%
dos adolescentes já estavam fora da escola; em 1995, apenas
três anos depois, este percentual já havia decrescido
para algo em torno de 42%. Como conseqüência da maior
permanência no sistema escolar, cresce de forma expressiva
a proporção de adolescentes que avançam além
dos quatro primeiros anos. O mesmo se dá, de alguma maneira,
em relação à conclusão do primeiro grau
e do segundo grau.
Finalmente,
como mostra o mencionado estudo, a onda de adolescentes acontece
num momento de escassas oportunidades de trabalho e crescente competitividade
pelos postos existentes. Na verdade, os dois fenômenos somados
– escassez de emprego e aumento geracional de jovens – respondem
pela expressiva diminuição, na população
de adolescentes, da porcentagem dos que já fazem parte da
população economicamente ativa. Este é um indicador
a mais de que essa população vai tentar permanecer
mais tempo no sistema de ensino na expectativa de receber o preparo
necessário para conseguir um emprego.
A
capacidade do país para atender essa demanda é muito
limitada. Menos de 50% de toda a população de 15 a
17 anos está matriculada na escola e destes, metade ainda
está no ensino fundamental. Segundo os dados da UNESCO o
Brasil tem uma das mais baixas taxas de matrícula bruta nessa
faixa etária, comparada à de vários países
da América Latina, para não dizer Europa, América
do Norte ou Ásia.
No
continente latino-americano os países que têm uma taxa
bruta de matrícula da população de 14 a 17
anos menor que a brasileira concentram-se na América Central:
Costa Rica, Nicarágua, República Dominicana, Honduras,
Haiti, El Salvador e Guatemala. Entre os que, desde 95, ultrapassavam
os 50% estão Peru, Colômbia, México e Equador.
Dos parceiros do Mercosul apenas Paraguai e Bolívia têm
situação pior: 37% e 40% respectivamente. Argentina
(76%), Chile (73%) e Uruguai (81%), estão melhores que os
"tigres asiáticos" (72%) e caminham para alcançar
a média dos países desenvolvidos (90%).
Não
é apenas em virtude de seu tamanho e complexidade, nem mesmo
dos muitos equívocos educacionais cometidos no passado, que
um país, cuja economia concorre em tamanho com o Canadá,
apresenta indicadores de cobertura do ensino médio inferiores
aos da Argentina, Colombia, Chile, Uruguai, México, Equador
e Peru.
Esse
desequilíbrio se explica também por décadas
de crescimento econômico excludente, que aprofundou a fratura
social e produziu a pior distribuição de renda do
mundo. A esse padrão de crescimento associa-se uma desigualdade
educacional que transformou em privilégio o acesso a um nível
de ensino cuja universalização é hoje considerada
estratégica para a competitividade econômica e o exercício
da cidadania.
Até
meados deste século o ponto de ruptura do sistema educacional
brasileiro situou-se, na zona rural, no acesso à escola obrigatória
e, nas zonas urbanas, na passagem entre o antigo primário
e o secundário, ritualizada pelo exame de admissão.
Com a quase universalização do ensino fundamental
de oito anos, a ruptura passou a expressar-se de outras formas:
por diferenciação de qualidade, dentro do ensino fundamental,
atestada pelas altíssimas taxas de repetência e evasão;
e, mais recentemente, pela existência de uma nova barreira
de acesso, agora ano limiar e dentro do ensino médio.
A
falta de vagas no ensino médio público; a segmentação
por qualidade, aguda no setor privado, mas presente também
no público; o aumento da repetência e da evasão
que estão acompanhando o crescimento da matrícula
gratuita do ensino médio alertam para o fato de que a extensão
desse ensino a um número maior e muito mais diversificado
de alunos será uma tarefa tecnicamente complexa e politicamente
conflitiva.
Pelo
caráter que assumiu na historia educacional de quase todos
os países, a educação média é
particularmente vulnerável à desigualdade social.
Enquanto a finalidade do ensino fundamental nunca está em
questão, no ensino médio se dá uma disputa
permanente entre orientações mais profissionalizantes
ou mais acadêmicas, entre objetivos humanistas e econômicos.
Essa tensão de finalidades expressa-se em privilégios
e exclusões quando, como ocorre no caso brasileiro, a origem
social é o fator mais forte na determinação
de quais têm acesso à educação média
e à qual modalidade da mesma.
Analisando
essa questão Cury afirma que esse nível de ensino,
Expressando um momento em que se cruzariam idade, competência,
mercado de trabalho e proximidade da maioridade civil, expõe
um nó das relações sociais no Brasil manifestando
seu caráter dual e elitista, através mesmo das funções
que lhe são historicamente atribuídas: a função
formativa, a propedêutica e a profissionalizante.
E
prossegue: […] a propedêutica de elites cuja extração
se dá nos estratos superiores de uma sociedade agrária
e hierarquizada, incontestavelmente deixou seqüelas
(talvez mais do que isso) até hoje. A função
propedêutica, dentro deste modelo, tem um nítido sentido
elitista e de privilégio, com destinação social
explícita. E esta associação entre propedêutica
e elite ganhará sua expressão doutrinária máxima
tanto na Constituição de 1937, como na Exposição
de Motivos que acompanha a reforma do ensino secundário do
decreto-lei 4.244/42.
A
Constituição de 1937 é clara no seu artigo
129, cita o autor: O ensino prevocacional e profissional,
destinado às classes menos favorecidas é, em matéria
de educação, o primeiro dever do Estado.
Já
a exposição de motivos de Capanema em 1942 é
conseqüente com este princípio discriminatório
ao dizer que, "além da formação da consciência
patriótica o ensino secundário se destina à
preparação das individualidades condutoras, isto é,
dos homens que deverão assumir as responsabilidades maiores
dentro da sociedade e da nação, dos homens portadores
das concepções e atitudes espirituais que é
preciso infundir nas massas, que é preciso tornar habituais
entre o povo".
É
portanto do ensino médio que se vem cobrando uma definição
sobre o destino social dos alunos, cobrança esta que ficou
clara com a política, afinal fracassada, de profissionalização
universal criada pela Lei 5692/71. E nunca é demais lembrar
que os concluintes da escola obrigatória ainda constituem
uma minoria selecionada de sobreviventes do ensino fundamental.
Com a melhoria deste último espera-se que a maioria consiga
cumprir as oito séries da escola obrigatória. A universalização
do ensino médio, além de mandamento legal, será
assim uma demanda social concreta. É tempo de pensar na escola
média a ser oferecida a essa população.
Os
finais de anos 90 inspiram momentos de rara lucidez como o que teve
Italo Calvino quando afirmou que só aquilo que formos capazes
de construir neste milênio poderemos levar para o próximo.
O Brasil não tem para legar ao século XXI uma tradição
consolidada de educação média democrática
de qualidade. Mas tem o legado valioso da lição aprendida
com a expansão do ensino fundamental: não é
possível oferecer a todos uma escola programada para a excluir
a maioria, sem aprofundar a desigualdade, porque em educação
escolar a superação de exclusões seculares
requer ir além do "fazer mais do mesmo".
Neste
sentido vale a pena citar a mensagem que o mencionado estudo demográfico
da Fundação SEADE envia aos que labutam na educação,
após analisar dados etários e de trabalho e escolaridade
na população adolescente:
Já
na antevéspera do ano 2000 – após sofrida trajetória
que, certamente, inclui mais de uma repetência e períodos
intermitentes fora da escola – os filhos das famílias mais
pobres deste país estão finalmente descobrindo a importância
da escola, indo para além dos quatro primeiros anos iniciais,
mesmo nos Estados mais atrasados, e já batendo nas portas
do ensino secundário nos Estados do sul. Não temos
mais o direito de repetir erros agora, quando estamos repensando
a educação deste país e nos preparando para
a árdua luta da competição internacional. É
fundamental criar todo tipo de incentivo e retirar todo tipo de
obstáculo para que os jovens permaneçam no sistema
escolar. As questões que envolvem o adolescente de hoje não
podem mais ser pensadas fora das relações mais ou
menos tensas com o mundo do trabalho, fora de sua condição
de grande consumidor potencial de bens e serviços em uma
sociedade de massas, onde a escolarização não
se limita mais aos jovens e o trabalho não é só
de adultos, ou fora de suas relações de autonomia
ou dependência para com a ordem jurídica e política.
O
momento que vive a educação brasileira nunca foi tão
propício para pensar a situação de nossa juventude
numa perspectiva mais ampla do que a de um destino dual. A nação
anseia para superar privilégios, entre eles os educacionais,
a economia demanda recursos humanos mais qualificados. Esta é
uma oportunidade histórica para mobilizar recursos, inventividade
e compromisso na criação de formas de organização
institucional, curricular e pedagógica que superem o status
de privilégio que o ensino médio ainda tem no Brasil
para atender, com qualidade, clientelas de origens, destinos sociais
e aspirações muito diferenciadas.
2.3
As Bases Legais Do Ensino Médio Brasileiro
O
marco desse momento histórico está dado pela LDB,
que aponta o caminho político para o novo ensino médio
brasileiro. Em primeiro lugar destaca-se a afirmação
do seu caráter de formação geral, superando
no plano legal a histórica dualidade dessa etapa de educação:
Artigo
21 – A educação escolar compõem-se de:
- educação
básica, formada pela educação infantil, ensino
fundamental e ensino médio;
- educação
superior.
Como
bem afirma o documento do MEC que encaminha ao CNE a proposta de
organização curricular do ensino médio, ao
incluir este último na educação básica,
a LDB transforma em normal legal o que já estava anunciado
no texto constitucional: Na verdade, a Constituição
de 1988 já prenunciava isto quando, no inciso II do Artigo
208, garantia como dever do Estado a «progressiva extensão
da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio». Posteriormente,
a emenda Constitucional nº 14/96, altera a redação
desse inciso, sem que se altere neste aspecto o espírito
da redação original, inscrevendo no texto constitucional
a «progressiva universalização do ensino médio
gratuito». A Constituição portanto confere a este
nível de ensino o estatuto de direito de todo o cidadão.
O ensino médio passa pois a integrar a etapa do processo
educacional que a nação considera básica para
o exercício da cidadania, base para o acesso às atividades
produtivas, inclusive para o prosseguimento nos níveis mais
elevados e complexos de educação, e para o desenvolvimento
pessoal…
O
caráter de educação básica do ensino
médio ganha conteúdo concreto quando, em seus artigos
35 e 36, a LDB estabelece suas finalidades, traça as diretrizes
gerais para a organização curricular e define o "perfil
de saída" do educando:
Artigo
35 – O ensino médio, etapa final da educação
básica, com duração mínima de três
anos, terá como finalidades:
I. a
consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos
adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento
de estudos;
II. a
preparação básica para o trabalho e a cidadania
do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se
adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação
ou aperfeiçoamento posteriores;
III. o
aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação
ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento
crítico;
IV. a
compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos
dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática,
no ensino de cada disciplina.
Artigo
36 – O currículo do ensino médio observará
o disposto na Seção I deste Capítulo e as seguintes
diretrizes:
- destacará
a educação tecnológica básica, a compreensão
do significado da ciência, das letras e das artes; o processo
histórico de transformação da sociedade e
da cultura; a língua portuguesa como instrumento de comunicação,
acesso ao conhecimento e exercício da cidadania;
- adotará
metodologias de ensino e de avaliação que estimulem
a iniciativa dos estudantes;
- será
incluída uma língua estrangeira moderna, como disciplina
obrigatória, escolhida pela comunidade escolar, e uma segunda,
em caráter optativo dentro das disponibilidades da instituição.
Parágrafo
primeiro – Os conteúdos, as metodologias e as formas de avaliação
serão organizados de tal forma que ao final do ensino médio
o educando demonstre:
- domínio
dos princípios científicos e tecnológicos
que presidem a produção moderna;
- conhecimento
das formas contemporâneas de linguagem;
- domínio
dos conhecimentos de Filosofia e de Sociologia necessários
ao exercício da cidadania.
Parágrafo
segundo – O ensino médio, atendida a formação
geral do educando, poderá prepará-lo para o exercício
de profissões técnicas.
Parágrafo
terceiro – Os cursos de ensino médio terão equivalência
legal e habilitarão ao prosseguimento de estudos.
Parágrafo
quarto – A preparação geral para o trabalho e, facultativamente,
a habilitação profissional, poderão ser desenvolvidas
nos próprios estabelecimentos de ensino médio ou em
cooperação com instituições especializadas
em educação profissional.
A
lei sinaliza assim que, mesmo a preparação para prosseguimento
de estudos terá como conteúdo não o acúmulo
de informações mas a continuação do
desenvolvimento da capacidade de aprender e a compreensão
do mundo físico, social e cultural, tal como prevê
o Artigo 32 para o ensino fundamental, do qual o nível médio
é a consolidação e o aprofundamento.
A
concepção da preparação para o trabalho
que fundamenta o Artigo 35 aponta para a superação
da dualidade do ensino médio: essa preparação
será básica, ou seja, aquela que deve ser base para
a formação de todos e para todos os tipos de trabalho.
Por ser básica terá como referência as mudanças
nas demandas do mercado de trabalho, daí a importância
da capacidade de continuar aprendendo; não se destina apenas
àqueles já que estão no mercado de trabalho
ou que nele ingressarão a curto prazo; nem será preparação
para o exercício de profissões específicas
ou para a ocupação de postos de trabalho determinados.
Assim
entendida, a preparação para o trabalho – fortemente
dependente da capacidade de aprendizagem – destacará a relação
da teoria com a prática e a compreensão dos processos
produtivos enquanto aplicações das ciências,
em todos os conteúdos curriculares. A preparação
básica para o trabalho não está portanto vinculada
a nenhum componente curricular em particular, pois o trabalho deixa
de ser obrigação – ou privilégio – de conteúdos
determinados para integrar-se ao currículo como um todo.
Finalmente, no artigo 36, as diretrizes sobre como deve ser organizado
o currículo do ensino médio para que o aluno apresente
o perfil de saída preconizado pela lei, estabelecem o conhecimento
dos princípios científicos e tecnológicos da
produção ao nível do domínio, reforçando
a importância do trabalho no currículo.
Destaca-se
a importância que o artigo 36 atribui às linguagens:
à língua portuguesa não apenas enquanto expressão
e comunicação mas como forma de acessar conhecimentos
e exercer a cidadania; às linguagens contemporâneas,
entre as quais é possível identificar suportes decisivos
para os conhecimentos tecnológicos a serem dominados.
Entendida
a preparação para o trabalho no contexto da educação
básica, da qual o ensino médio passa a fazer parte
inseparável, o artigo 36 prevê a possibilidade de sua
articulação com cursos ou programas diretamente vinculados
à preparação para o exercício de uma
profissão, não sem antes: reiterar a importância
da formação geral a ser assegurada; e definir a equivalência
de todos os cursos de ensino médio para efeito de continuidade
de estudos. Neste sentido, e coerente com o princípio da
flexibilidade, a LDB abre aos sistemas e escolas muitas possibilidades
de colaboração e articulação institucional
a fim de que os tempos e espaços da formação
geral fiquem preservados e a experiência de instituições
especializadas em educação profissional seja aproveitada,
para responder às necessidades heterogêneas dos jovens
brasileiros.
2.4
O ensino médio no mundo: uma transformação
acelerada
O
desafio de ampliar a cobertura do ensino médio ocorre no
Brasil ao mesmo tempo em que, no mundo todo, a educação
posterior à primária passa por revisões radicais
nas suas formas de organização institucional e nos
seus conteúdos curriculares.
Etapa
da escolaridade que tradicionalmente acumula as funções
propedêuticas e de terminalidade ela tem sido a mais afetada
pelas mudanças nas formas de conviver, de exercer a cidadania
e de organizar o trabalho, impostas pela nova geografia política
do planeta, pela globalização econômica e pela
revolução tecnológica.
A
facilidade de acessar, selecionar e processar informações
está permitindo descobrir novas fronteiras do conhecimento
nas quais este se revela cada vez mais integrado. Integradas são
também as competências e habilidades requeridas por
uma organização da produção na qual
criatividade, autonomia e capacidade de solucionar problemas serão
cada vez mais importantes, comparadas à repetição
de tarefas rotineiras. E mais do que nunca, há um forte anseio
de inclusão e de integração sociais como antídoto
à ameaça de fragmentação e segmentação.
Essa mudança de paradigmas – no conhecimento, na produção
e no exercício da cidadania – colocou em questão a
dualidade, mais ou menos rígida dependendo do país,
que presidiu a oferta de educação pós obrigatória.
Inicia-se
assim em meados dos anos 80 e primeira metade dos 90 um processo
ainda em curso, de revisão das funções tradicionalmente
duais da educação secundária, buscando um perfil
de formação do aluno mais condizente com as características
da produção pós industrial. O esforço
de reforma foi assim, na sua motivação inicial, fortemente
referenciado nas mudanças econômicas e tecnológicas.
Descontadas
as peculiaridades dos sistemas educacionais dos diferentes países
e até mesmo o grau de sucesso até hoje alcançado
pelos esforços de reforma, destacam-se duas características
comuns a todas elas: progressiva integração curricular
e institucional entre as várias modalidades da etapa de escolaridade
média; e visível desespecialização das
modalidades profissionalizantes.
Mas
numa velocidade nunca antes experimentada esse processo de reforma,
que poderia ter evoluído para o reforço – apenas mais
otimista – da subordinação do ensino médio
às necessidades da economia, rapidamente incorpora outros
elementos. No bojo das iniciativas que começaram em meados
dos 80, a segunda metade dos anos 90 assiste ao surgimento de uma
nova geração de reformas.
Estas
já não pretendem apenas a desespecialização
da formação profissional. Tão pouco se limitam
a tornar menos "acadêmica" e mais "prática"
a formação geral. O que se busca agora é uma
a redefinição radical e de conjunto do segmento de
educação pós obrigatoriedade. À forte
referência nas necessidades produtivas e à ênfase
na unificação, características da primeira
fase de reformas, agregam-se agora os ideais do humanismo e da diversidade.
Segundo
Azevedo, … Neste conflito de finalidades parece, por vezes, emergir
a oportunidade "histórica", segundo Tedesco (1995),
de aproximar ambas finalidades, numa nova tensão, esta agora
mais potenciadora do desenvolvimento humano. E prossegue: …
não é tanto o ensino técnico e a formação
profissional que carecem de reformas mais ou menos desespecializadoras
e unificadoras, é também o ensino geral que precisa
de profunda revisão, ou seja, todas as vias e modalidades
de ensino, desde as mais profissionais até às mais
"liberais" para usar o termo inglês, são
chamadas a contribuir de outro modo para um desenvolvimento mais
equilibrado da personalidade dos indivíduos.
A
União Européia manifestou-se de forma contundente
a favor da unificação do ensino médio, mas
alerta para a necessidade de considerar outras necessidades além
das que são sinalizadas pela organização do
trabalho. E busca sustentação para sua posição
no pensamento do próprio empresariado europeu: a missão
fundamental da educação consiste em ajudar cada indivíduo
a desenvolver todo o seu potencial e a tornar-se um ser humano completo,
e não um mero instrumento da economia; a aquisição
de conhecimentos e competências deve ser acompanhada pela
educação do caráter, a abertura cultural e
o despertar da responsabilidade social.
A
mesma orientação segue a UNESCO no relatório
da Reunião Internacional sobre Educação Para
O Século XXI. Esse documento apresenta as quatro grandes
necessidades de aprendizagem dos cidadãos do próximo
milênio às quais a educação deve responder:
aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender
a ser. E insiste que nenhuma delas deve ser negligenciada.
É
sintomático que diante do desafio que representam essas aprendizagens,
se assista a uma revalorização das teorias que destacam
a importância dos afetos e da criatividade no ato de aprender.
A integração das cognições com as demais
dimensões da personalidade é o desafio que as tarefas
de vida na sociedade da informação e do conhecimento
estão (re) pondo à educação e à
escola.
A
reposição do humanismo nas reformas do ensino médio
deve ser entendida então como busca de saídas para
possíveis efeitos negativos do pós industrialismo.
Diante da fragmentação gerada pela quantidade e velocidade
da informação, é para a educação
que se voltam as esperanças de preservar a integridade pessoal
e estimular a solidariedade.
Espera-se
que a escola contribua para a constituição de uma
cidadania de qualidade nova, cujo exercício reuna conhecimentos
e informações a um protagonismo responsável,
para exercer direitos que vão muito além da representação
política tradicional: emprego, qualidade de vida, meio ambiente
saudável, igualdade de homens e mulheres enfim, ideais afirmativos
para vida pessoal e para a convivência.
Diante
da violência, do desemprego e da vertiginosa substituição
tecnológica, revigoram-se as aspirações de
que a escola, especialmente a média, contribua para a aprendizagem
de competências de caráter geral, visando a constituição
de pessoas mais aptas a assimilar mudanças, mais autônomas
em suas escolhas, mais solidárias, que acolham e respeitem
as diferenças, pratiquem a solidariedade e superem a segmentação
social.
Nos
países de economia emergente, a essas preocupações
somam-se ainda aquelas geradas pela necessidade de promover um desenvolvimento
que seja sustentável a longo prazo e menos vulnerável
à instabilidade causada pela globalização econômica.
A sustentabilidade do desenvolvimento, até os anos 70 pensada
apenas em termos de acumulação de capital físico
e financeiro, revelou-se a partir dos 80 fortemente associada à
qualidade dos recursos humanos e à adoção de
formas menos predatórias de utilização dos
recursos naturais. Mais uma vez é sobre a educação
média, ou sobre a sua ausência em quantidade e qualidade
satisfatórias, que converge o centro de gravidade do sistema
educacional.
Nas
condições contemporâneas de produção
de bens, serviços e conhecimentos, a preparação
de recursos humanos para um desenvolvimento sustentável supõe
desenvolver capacidade de assimilar mudanças tecnológicas
e adaptar-se a novas formas de organização do trabalho.
Esse tipo de preparação faz necessário o prolongamento
da escolaridade e a ampliação das oportunidades de
continuar aprendendo. Formas equilibradas de gestão dos recursos
naturais, por seu lado, exigem políticas de longo prazo,
geridas ou induzidas pelo Estado e sustentadas de modo contínuo
e regular por toda a população, na forma de hábitos
preservacionistas racionais e bem informados.
Contextualizada
no cenário mundial, e vista sob o prisma da extrema desigualdade
que marca seu sistema de ensino, a situação do Brasil
é verdadeiramente alarmante. O ensino médio de maioria
é ainda um ideal a ser colocado em prática. Para isso
será necessário sair do século XIX e chegar
ao XXI suprimindo etapas nas quais, ao longo do século XX,
muitos países ousaram experimentar e aprender.
No
entanto, vista sob o prisma da vontade nacional expressa na LDB,
a situação brasileira é rica de possibilidades.
O projeto de ensino médio do país está definido,
nas suas diretrizes e bases, em admirável sintonia
com a última geração de reformas do ensino
médio no mundo. O exercício de aproximação
dos séculos pode ser feito de forma inteligente se tivermos
presente a experiência de outros países para evitar
os equívocos que eles não puderam evitar.
2.5
Respostas a uma convocação
Sintonizada
com as demandas educacionais mais contemporâneas e com as
iniciativas mais recentes que os sistemas de ensino do mundo todo
vêm articulando para respondê-las, a LDB busca conciliar
humanismo e tecnologia, conhecimento dos princípios científicos
que presidem a produção moderna e exercício
da cidadania plena, formação ética e autonomia
intelectual. Esse equilíbrio entre as finalidades "personalistas"
e "produtivistas" requer uma visão unificadora,
um esforço para superar os dualismos e ao mesmo tempo diversificar
as oportunidades de formação.
Tornar
realidade esse ensino médio ao mesmo tempo unificado e diversificado
vai exigir muito mais do que traçar grades curriculares que
mesclam ou justapõem disciplinas científicas e humanidades
com pitadas de tecnologia. Tão pouco será solução
dissimular a formação básica sob o rótulo
de disciplinas pseudo profissionalizantes, como ocorreu após
a Lei 5692/71 ou, ao revés, oferecer habilitação
profissional disfarçada de "educação básica"
só porque agora assim mandam as novas diretrizes e bases
da educação.
Mais
que um conjunto de regras a ser obedecido, ou burlado, a LDB é
uma convocação que oferece à criatividade e
ao empenho dos sistemas e suas escolas a possibilidade de múltiplos
arranjos institucionais e curriculares inovadores. É da exploração
dessa possibilidade, muito mais que do cumprimento burocrático
dos mandamentos legais, que deverão nascer as diferentes
formas de organização do ensino médio, integradas
internamente, diversificadas nas suas formas de inserção
no meio sociocultural, para atender um segmento jovem e jovem adulto
cujos itinerários de vida serão cada vez mais imprevisíveis
mas que temos por responsabilidade balizar em marcos de maior justiça,
igualdade, fraternidade e felicidade.
A resposta a uma convocação dessa natureza exige o
diálogo e a busca de consensos sobre os valores, atitudes,
padrões de conduta e diretrizes pedagógicas que a
mesma LDB propõe como orientadores da jornada, que será
longa e cheia de obstáculos. Deter-se sobre o plano axiológico
e tentar traduzi-lo em uma doutrina pedagógica coerente não
significa ignorar o operativo, a falta de professores preparados,
a precariedade de financiamento. Ao contrário, o esforço
doutrinário se justifica porque a superação
desse estado crônico de carências requer clareza de
finalidades, conjugação de esforços e boa vontade
para superar conflitos, que só a comunhão de valores
pode propiciar.
3. Fundamentos
Estéticos, Políticos E Éticos Do Novo Ensino
Médio Brasileiro
Houve
tempo em que os deuses existiam, mas não as espécies
mortais. Quando chegou o momento assinalado pelo destino para sua
criação, os deuses formaram-nas nas entranhas da terra,
com uma mistura de terra, de fogo e dos elementos associados ao
fogo e à terra. Quando chegou a ocasião de as trazer
à luz, encarregaram Prometeu e Epimeteu de as prover de qualidades
apropriadas. Mas Epimeteu pediu a Prometeu que lhe deixasse fazer
sozinho a partilha. "Quando acabar, disse ele, tu virás
examiná-la". Satisfeito o pedido, procedeu à
partilha, atribuindo a uns a força sem a velocidade, aos
outros a velocidade sem a força; deu armas a estes, recusou-as
àqueles, mas concedeu-lhes outros meios de conservação;
aos que tinham pequena corpulência deu asas para fugirem ou
refúgio subterrâneo; aos que tinham a vantagem da corpulência
esta bastava para os conservar; e aplicou este processo de compensação
a todos os animais. Estas medidas de precaução eram
destinadas a evitar o desaparecimento das raças. Então,
quando lhes havia fornecido os meios de escapar à mútua
destruição, quis ajudá-los a suportar as estações
de Zeus; para isso, lembrou-se de os revestir de pêlos espessos
e peles fortes, suficientes para os abrigar do frio, capazes também
de os proteger do calor e destinados, finalmente a servir, durante
o sono, de coberturas naturais, próprias de cada um deles;
deu-lhes, além disso, como calçado, sapatos de corno
ou peles calosas e desprovidas de sangue; em seguida deu-lhes alimentos
variados, segundo as espécies: a uns, ervas do chão,
a outros frutos das árvores, a outros raízes; a alguns
deu outros animais a comer, mas limitou sua fecundidade e multiplicou
a das vítimas, para assegurar a preservação
da raça.
Todavia,
Epimeteu, pouco reflectido, tinha esgotado as qualidades a distribuir,
mas faltava-lhe ainda prover a espécie humana e não
sabia como resolver o caso. Então Prometeu veio examinar
a partilha; viu os animais bem providos de tudo, mas o homem nu,
descalço, sem cobertura nem armas, e aproximava-se o dia
fixado em que ele devia sair do seio da terra para a luz. Então
Prometeu, não sabendo que inventar para dar ao homem um meio
de conservação, roubou a Hefaisto e a Ateneia o conhecimento
das artes com o fogo, pois sem o fogo o conhecimento das artes é
impossível e inútil, e presenteou com isto o homem.
O homem ficou assim com ciência para conservar a vida, mas
faltava-lhe a ciência política; esta, possuía-a
Zeus, e Prometeu já não tinha tempo de entrar na acrópole
que Zeus habita e onde velam, aliás, temíveis guardas.
Introduziu-se, pois, furtivamente na oficina comum em que Ateneia
e Hefaisto cultivavam o seu amor às artes, furtou ao Deus
a sua arte de manejar o fogo e à Deusa a arte que lhe é
própria, e ofereceu tudo ao homem, tornando-o apto a procurar
recursos para viver. Diz-se que Prometeu foi depois punido pelo
roubo que tinha cometido, por culpa de Epimeteu.
Quando
o homem entrou na posse do seu quinhão divino, a princípio,
por causa da sua afinidade com os deuses, acreditou na existência
deles, privilégio só a ele atribuído, entre
todos os animais, e começou a erguer-lhes altares e estátuas;
seguidamente, graças à ciência que possuía,
conseguiu articular a voz e formar os nomes das coisas, inventar
as casas, o vestuário, o calçado, os leitos e tirar
alimentos da terra. Com estes recursos, os homens, na sua origem,
viviam isolados e as cidades não existiam; por isso morriam
sob os ataques dos animais selvagens, mais fortes do que eles; bastavam
as artes mecânicas, para os fazer viver; mas tinham insuficientes
recursos na guerra contra os animais, porque não possuíam
ainda a ciência política de que a arte militar faz
parte. Por conseqüencia procuraram reunir-se e pôr-se
em segurança, fundando cidades; mas, quando se reuniam, faziam
mal uns aos outros, porque lhes faltava a ciência política,
de modo que se separavam novamente e morriam.
Então
Zeus, receando que a nossa raça se extinguisse, encarregou
Hermes de levar aos homens o respeito e a justiça para servirem
de normas às cidades e unir os homens pelos laços
da amizade. Então Hermes perguntou a Zeus de que maneira
devia dar aos homens a justiça e o respeito. "Devo distribuí-los,
como se distribuiram as artes? Ora as artes foram divididas de maneira
que um único homem, especializado na arte médica,
basta para um grande número de profanos e o mesmo quanto
aos outros artistas. Devo repartir assim a justiça e o respeito
pelos homens, ou fazer que pertençam a todos?" – "Que
pertençam a todos, respondeu Zeus; que todos tenham a sua
parte, porque as cidades não poderiam existir se estas virtudes
fossem, como as artes, quinhão exclusivo de alguns; estabelece,
além disso, em meu nome, esta lei: que todo homem incapaz
de respeito e de justiça seja exterminado como o flagelo
da sociedade".
Eis
como e porquê, Sócrates, os atenienses e outros povos,
quando se trata de arquitectura ou de qualquer arte profissional,
entendem que só um pequeno número pode dar conselhos,
e se qualquer outra pessoa, fora deste pequeno número, se
atreve a emitir opinião, eles não o toleram, como
acabo de dizer, e têm razão, ao que me parece. Mas,
quando se delibera sobre política, em que tudo assenta na
justiça e no respeito, têm razão de admitir
toda a gente, porque é necessário que todos tenham
parte na virtude cívica. Doutra forma, não pode existir
a cidade.
latão.
Protágoras
A
prática administrativa e pedagógica dos sistemas de
ensino e de suas escolas, as formas de convivência no ambiente
escolar, os mecanismos de formulação e implementação
de políticas, os critérios de alocação
de recursos, a organização do currículo e das
situações de aprendizagem, os procedimentos de avaliação,
deverão ser coerentes com os valores estéticos, políticos
e éticos que inspiram a Constituição e a LDB,
organizados sob três consignas: sensibilidade, igualdade e
identidade.
3.1
A estética da sensibilidade
Como
expressão do tempo contemporâneo, a estética
da sensibilidade vem substituir a da repetição e padronização,
hegemônica na era das revoluções industriais.
Ela estimula a criatividade, o espírito inventivo, a curiosidade
pelo inusitado, a afetividade, para facilitar a constituição
de identidades capazes de suportar a inquietação,
conviver com o incerto, o imprevisível e o diferente.
Diferentemente
da estética estruturada, própria de um tempo em que
os fatores físicos e mecânicos são determinantes
do modo de produzir e conviver, a estética da sensibilidade
valoriza a leveza, a delicadeza e a sutileza. Estas, por estimularem
a compreensão não apenas do explicitado mas também,
e principalmente, do insinuado, são mais contemporâneas
de uma era em que a informação caminha pelo vácuo,
de um tempo no qual o conhecimento concentrado no microcircuito
do computador vai se impondo sobre o valor das matérias primas
e da força física presentes nas estruturas mecânicas.
A
estética da sensibilidade realiza um esforço permanente
para devolver ao âmbito do trabalho e da produção,
a criação e a beleza daí banidos pela moralidade
industrial tailorista. Por esta razão procura não
limitar o lúdico a espaços e tempos exclusivos, mas
integrar diversão, alegria e senso de humor a dimensões
de vida muitas vezes consideradas afetivamente austeras como a escola,
o trabalho, os deveres, a rotina cotidiana. Mas a estética
da sensibilidade quer também educar pessoas que saibam transformar
o uso do tempo livre num exercício produtivo porque criador.
E que aprendam a fazer do prazer, do entretenimento, da sexualidade,
um exercício de liberdade responsável.
Como
expressão de identidade nacional a estética da sensibilidade
facilitará o reconhecimento e valorização da
diversidade cultural brasileira e das formas de perceber e expressar
a realidade próprias dos gêneros, das etnias, e das
muitas regiões e grupos sociais do país. Assim entendida
a estética da sensibilidade é um substrato indispensável
para uma pedagogia que se quer brasileira, portadora da riqueza
de cores, sons e sabores deste país, aberta à diversidade
dos nossos alunos e professores, mas que não abdica da responsabilidade
de constituir cidadania para um mundo que se globaliza e de dar
significado universal aos conteúdos da aprendizagem. ]
Nos
produtos da atividade humana, sejam eles bens, serviços ou
conhecimentos, a estética da sensibilidade valoriza a qualidade.
Nas práticas e processos, a busca de aprimoramento permanente.
Ambos, qualidade e aprimoramento, associam-se ao prazer de fazer
bem feito e à insatisfação com o razoável
quando é possível realizar o bom e com este, quando
o ótimo é factível. Para essa concepção
estética, o ensino de má qualidade é, em sua
feiura, uma agressão à sensibilidade e por isso será
também anti democrático e anti ético.
A
estética da sensibilidade não é um princípio
inspirador apenas do ensino de conteúdos ou atividades expressivas,
mas uma atitude diante de todas as formas de expressão que
deve estar presente no desenvolvimento do currículo e na
gestão escolar. Ela não se dissocia das dimensões
éticas e políticas da educação porque
quer promover a crítica à vulgarização
da pessoa; às formas estereotipadas e reducionistas de expressar
a realidade; às manifestações que banalizam
os afetos e brutalizam as relações pessoais.
Numa
escola inspirada na estética da sensibilidade o espaço
e o tempo são planejados para acolher, expressar a diversidade
dos alunos e oportunizar trocas de significados. Nessa escola, a
descontinuidade, a dispersão caótica, a padronização,
o ruído, cederão lugar à continuidade, à
diversidade expressiva, ao ordenamento e à permanente estimulação
pelas palavras, imagens, sons, gestos e expressões de pessoas
que buscam incansavelmente superar a fragmentação
dos significados e o isolamento que ela provoca.
Finalmente
a estética da sensibilidade não exclui outras estéticas,
próprias de outros tempos e lugares. Como forma mais avançada
de expressão ela as sub-assume, explica, entende, critica,
contextualiza porque não convive com a exclusão, a
intolerância e a intransigência.
3.2
A política da igualdade
A
política da igualdade incorpora a igualdade formal, conquista
do período de constituição dos grandes estados
nacionais. Seu ponto de partida é o reconhecimento dos direitos
humanos e o exercício dos direitos e deveres da cidadania,
como fundamento da preparação do educando para a vida
civil.
Mas
a igualdade formal não basta a uma sociedade na qual a emissão
e recepção da informação em tempo real
está ampliando de modo antes inimaginável o acesso
às pessoas e aos lugares, permitindo comparar e avaliar qualidade
de vida, hábitos, formas de convivência, oportunidades
de trabalho e de lazer.
Para
essa sociedade a política da igualdade vai se expressar também
na busca da equidade no acesso à educação,
ao emprego, à saúde, ao meio ambiente saudável,
e outros benefícios sociais e no combate a toda as formas
de preconceito e discriminação por motivo de raça,
sexo, religião, cultura, condição econômica,
aparência ou condição física.
A
política da igualdade se traduz pela compreensão e
respeito ao Estado de Direito e a seus princípios constitutivos
abrigados na Constituição: o sistema federativo e
o regime republicano e democrático. Mas contextualiza a igualdade
na sociedade da informação, como valor que é
"público" por ser de interesse de todos, não
exclusivamente do Estado, muito menos do governo.
Nessa
perspectiva a política da igualdade deverá fortalecer
uma forma contemporânea de lidar com o público e o
privado. E aqui ela associa-se à ética ao valorizar
atitudes e condutas responsáveis em relação
aos bens e serviços tradicionalmente entendidos como "públicos"
no sentido estatal, e afirmativas na demanda de transparência
e democratização no tratamento dos assuntos públicos.
E
o faz por reconhecer que uma das descobertas importantes deste final
de século é a de que …motivação,
criatividade, iniciativa, capacidade de aprendizagem, todas essas
coisas ocorrem no nível dos indivíduos e das comunidades
de dimensões humanas, nas quais eles vivem o seu dia a dia
…um tipo de sociedade extremamente complexa, onde os custos da
comunicação e da informação se aproximam
cada vez mais a zero, e onde as distinções antigas
entre o local, o nacional e o internacional, o pequeno e o grande,
o centralizado e o descentralizado, tendem o tempo todo a se confundir,
desaparecer e reaparecer sob novas formas.
Essa
visão implica num esforço para superar a antiga contradição
entre a realidade da grande estrutura de poder e o ideal da comunidade
perdida, que ocorrerá pela incorporação do
protagonismo ao ideal de respeito ao bem comum. Respeito ao bem
comum com protagonismo constitui assim uma das finalidades mais
importantes da política da igualdade e se expressa por condutas
de participação e solidariedade, respeito e senso
de responsabilidade, pelo outro e pelo público.
Em
uma de suas direções esse movimento leva o ideal de
igualdade para o âmbito das relações pessoais
na família e no trabalho, no qual questões como a
igualdade entre homens e mulheres, os direitos da criança,
a eliminação da violência, passam a ser decisivas
para a convivência integradora. Mas há também
uma direção contrária, provocando o envolvimento
crescente de pessoas e instituições não governamentais
nas decisões antes reservadas ao "poder público":
empresas, sindicatos, associações de bairro, comunidades
religiosas, cidadãos e cidadãs comuns, começam
a incorporar as políticas públicas, as decisões
econômicas, as questões ambientais, como itens prioritários
em sua agenda.
Um
dos fundamentos da política da igualdade é a estética
da sensibilidade. É desta que lança mão quando
denuncia os estereótipos que alimentam as discriminações
e quando, reconhecendo a diversidade, afirma que oportunidades iguais
são necessárias mas não suficientes para oportunizar
tratamento diferenciado visando promover igualdade entre desiguais.
A
política da igualdade, inspiradora do ensino de todos os
conteúdos curriculares é, ela mesma, um conteúdo
de ensino, sempre que nas ciências, nas artes, nas linguagens,
estiverem presentes os temas dos direitos da pessoa humana, do respeito,
da responsabilidade e da solidariedade, e sempre que os significados
dos conteúdos curriculares se contextualizarem nas relações
pessoais e práticas sociais convocatórias da igualdade.
Na
gestão e nas normas e padrões que regulam a convivência
escolar a política da igualdade incide com grande poder educativo
pois é sobretudo nesse âmbito que as trocas entre educador
e educando, entre escola e meio social, entre grupos de idade, favorecem
a formação de hábitos democráticos e
responsáveis de vida civil. Destaca-se aqui a responsabilidade
da liderança dos adultos da qual depende, em grande parte,
a coesão da escola em torno de objetivos compartilhados ,
condição básica para a prática da política
da igualdade.
Mas,
acima de tudo, a política da igualdade deve ser praticada
na garantia de igualdade de oportunidades e de diversidade de tratamentos
dos alunos e dos professores para aprender e aprender a ensinar
os conteúdos curriculares. Para isso os sistemas e escolas
deverão observar um direito pelo qual o próprio Estado
se faz responsável, no caso da educação pública:
garantia de padrões mínimos de qualidade de ensino
tais como definidos pela LDB no Inciso IX de seu Artigo 4.
A
garantia desses padrões passa por um compromisso permanente
em usar o tempo e o espaço pedagógicos, as instalações
e equipamentos, os materiais didáticos e os recursos humanos,
no interesse dos alunos. E em cada decisão administrativa
ou pedagógica, o compromisso de priorizar o interesse da
maioria dos alunos.
3.3
A ética da identidade
A
ética da identidade substitui a moralidade dos valores abstratos
da era industrialista e busca a finalidade ambiciosa de reconciliar
no coração humano aquilo que o dividiu desde os primórdios
da idade moderna: o mundo da moral e o mundo da matéria,
o privado e o público, enfim a contradição
expressa pela divisão entre a "igreja" e o "estado".
Essa ética se constitui a partir da estética e da
política e não por negação delas. Seu
ideal é o humanismo de um tempo de transição.
Expressão
de seres divididos mas que se negam a assim permanecer, a ética
da identidade ainda não se apresenta de forma acabada. O
drama desse novo humanismo, permanentemente ameaçado pela
violência e pela segmentação social, é
análogo ao da crisálida. Ignorando que será
uma borboleta pode ser devorada pelo pássaro antes de descobrir-se
transformada. O mundo vive um momento em que muitos apostam no pássaro.
O educador não tem escolha: aposta na borboleta ou não
é educador.
Como
princípio educativo a ética só é eficaz
quando desiste de formar pessoas "honestas", "caridosas"
ou "leais" e reconhece que a educação é
um processo de construção de identidades. Educar sob
inspiração da ética não é transmitir
valores morais mas criar as condições para que as
identidades se constituam pelo desenvolvimento da sensibilidade
e pelo reconhecimento do direito à igualdade a fim de que
orientem suas condutas por valores que respondam às exigências
do seu tempo.
Uma
das formas pelas quais a identidade se constitui é a convivência
e, nesta, pela mediação de todas as linguagens que
os seres humanos usam para compartilhar significados. Destes, os
mais importantes são os que carregam informações
e valores sobre as próprias pessoas. Vale dizer que a ética
da identidade se expressa por um permanente reconhecimento da identidade
própria e do outro. É assim simples. Ao mesmo tempo
é muito importante, porque no reconhecimento reside talvez
a grande responsabilidade da escola como lugar de conviver e, na
escola, do adulto educador, para a formação da identidade
das futuras gerações.
Âmbito privilegiado do aprender a ser como a estética
é o âmbito do aprender a fazer e a política
do aprender a conhecer e conviver, a ética da identidade
tem como fim mais importante a autonomia. Esta, condição
indispensável para os juízos de valor e as escolhas
inevitáveis à realização de um projeto
próprio de vida, requer uma avaliação permanente
e a mais realista possível das capacidades próprias
e dos recursos que o meio oferece.
Por
esta razão a ética da identidade é tão
importante na educação escolar. É aqui, embora
não exclusivamente, que a criança e o jovem vivem
de forma sistemática os desafios de suas capacidades. Situações
de aprendizagem programadas para produzir o fracasso, como acontece
tantas vezes nas escolas brasileiras são, neste sentido,
profundamente antiéticas. Abalam a auto-estima de seres que
estão constituindo suas identidades, contribuindo para que
estas incorporem o fracasso, às vezes irremediavelmente.
Auto-imagens prejudicadas quase sempre reprimem a sensibilidade
e desacreditam da igualdade.
Situações
antiéticas também ocorrem no ambiente escolar quando
a responsabilidade, o esforço e a qualidade, não são
praticados e recompensados. Contextos nos quais o sucesso resulta
da astúcia e não da qualidade do trabalho realizado,
que recompensam o "levar vantagem em tudo" em lugar do
"esforçar-se", não favorecem nos alunos
identidades constituídas com sensibilidade estética
e igualdade política.
Autonomia
e reconhecimento da identidade do outro se associam para construir
identidades mais aptas a incorporar a responsabilidade e a solidariedade.
Neste sentido a ética da identidade supõe uma racionalidade
diferente daquela que preside a dos valores abstratos, porque visa
formar pessoas solidárias e responsáveis por serem
autônomas.
Essa
racionalidade supõe que num mundo em que a tecnologia revoluciona
todos os âmbitos de vida e, ao disseminar informação
amplia as possibilidades de escolha mas também a incerteza,
a identidade autônoma, se constitui a partir da ética,
da estética e da política, mas mas precisa estar ancorada
em conhecimentos e competências intelectuais que deêm
acesso a significados verdadeiros sobre o mundo físico e
social. Esses conhecimentos e competências é que dão
sustentação à análise, à prospecção
e à solução de problemas, à capacidade
de tomar decisões, à adaptabilidade a situações
novas, à arte de dar sentido a um mundo em mutação.
Não
é por acaso que essas mesmas competências estão
entre as mais valorizadas pelas novas formas de produção
pós industrial que se instalam nas economias contemporâneas.
Essa é a esperança e a promessa que o novo humanismo
traz para a educação, em especial a média:
a possibilidade de integrar a formação para o trabalho
num projeto mais ambicioso de desenvolvimento da pessoa humana.
Uma chance real, talvez pela primeira vez na história, de
ganhar a aposta na borboleta.
Os
conhecimentos e competências cognitivas e sociais que se quer
desenvolver nos jovens alunos do ensino médio remetem assim
à educação como constituição
de identidades comprometidas com a busca da verdade. Mas para fazê-lo
com autonomia precisam desenvolver a capacidade de aprender, tantas
vezes reiterada na LDB. Essa é a única maneira de
alcançar os significados verdadeiros com autonomia. Com razão
portanto o inciso III do Artigo 35 da lei inclui,… no aprimoramento
do educando como pessoa humana,… a formação
ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento
crítico.
No
texto de Platão, Sócrates e Protágoras procuram
responder à pergunta – "é possível ensinar
a virtude"? Protágoras argumenta narrando a partilha
que Prometeu e Epimeteu fizeram dos talentos divinos entre as criaturas
mortais. E prova que se não for possível ensinar a
virtude, a "cidade" não é viável
pois apenas com o domínio das "artes" os humanos
não sobreviveriam porque exterminariam uns aos outros. Na
continuidade do diálogo fica claro que Sócrates também
acha que a virtude pode ser ensinada. Mas, por meio de suas perguntas,
leva Protágoras a reconhecer que ela não é
outra coisa senão a sabedoria que busca permanentemente a
verdade, e exatamente nisso reside a possibilidade de seu ensino.
A
pedagogia, como as demais "artes", situa-se no domínio
da estética e se exerce deliberadamente no espaço
da escola. A sensibilidade da prática pedagógica para
a qualidade do ensino e da aprendizagem dos alunos será a
contribuição específica e decisiva da educação
escolar para a igualdade, a justiça, a solidariedade, a responsabilidade.
Dela poderá depender a capacidade dos jovens cidadãos
do próximo milênio para aprender significados verdadeiros
do mundo físico e social, registrá-los, comunicá-los
e aplicá-los no trabalho, no exercício da cidadania,
no projeto de vida pessoal.
4. Diretrizes
Para Uma Pedagogia Da Qualidade
Nós
criamos uma civilização global em que os elementos
mais cruciais – o transporte, as comunicações e todas
as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação,
o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até
a importante instituição democrática do voto
– dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também
criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência
e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar
ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa
mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir
na nossa cara.
Sagan,
C.
Todo
aluno de nível médio deveria ser capaz de responder
a seguinte questão: Qual é a relação
entre as ciências e as humanidades e quão importante
é essa relação para o bem estar dos sêres
humanos? Todo intelectual e líder político também
deveria ser capaz de responder a essa questão. Metade da
legislação com a qual o Congresso Americano tem de
lidar contém componentes científicos e tecnológicos
importantes. Muitos dos problemas que afligem a humanidade diariamente
– conflitos étnicos, corrida armamentista, superpopulação,
aborto, meio ambiente, pobreza, para citar alguns dos que mais persistentemente
nos perseguem – não podem ser resolvidos sem integrar conhecimentos
das ciências naturais com conhecimentos das ciências
sociais e humanas. Somente a flexibilidade que atravessa as fronteiras
especializadas pode fornecer uma visão do mundo tal como
ele realmente é, e não como é visto pela lente
das ideologias, dos dogmas religiosos ou tal como é comandado
pelas respostas míopes a necessidades imediatas.
Wilson,
E. O.
Não
se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar; uma educação
sem aprendizagem é vazia e portanto degenera, com muita facilidade,
em retórica moral e emocional.
Arendt,
H.
De
acordo com os princípios estéticos, políticos
e éticos da LDB, sistematizados anteriormente, as escolas
de ensino médio observarão, na gestão, na organização
curricular e na prática pedagógica e didática,
as diretrizes expostas a seguir.
4.1
Identidade, Diversidade, Autonomia
O
Brasil possui diferentes modalidades ou formas de organização
institucional e curricular de ensino médio. Como em outros
países essas diferenças são modos de resolver
a tensão de finalidades desse nível de ensino. Respondem
mais à sua dualidade histórica do que à heterogeneidade
de alunados e associam-se a um padrão excludente: cursar
o ensino médio ainda é um privilégio de poucos
e, dentre estes, poucos têm acesso à qualidade.
Em
virtude dessa situação as escolas públicas
que conseguiram forjar identidades próprias de instituições
dedicadas à formação do jovem ou do jovem adulto,
e que por isso mesmo se tornaram alternativas de prestígio,
atendem a um número muito pequeno de alunos. Em alguns casos
essas escolas de prestígio terminaram mesmo por perder parte
de sua identidade de instituições formativas, pois
se viram, como as particulares de excelência, reféns
do exame vestibular, por causa do alunado selecionado que a elas
têm acesso.
Aos
demais restou a alternativa de estudar em classes esparsas de ensino
médio, instaladas em períodos ociosos, em geral noturnos,
de escolas públicas de ensino fundamental. Ou ainda em escolas
privadas de má qualidade, muitas delas também noturnas,
cujos custos cobrados a alunos trabalhadores não são
muito maiores dos que os das escolas públicas também
desqualificadas.
Essa
situação gerou uma padronização desqualificada
que se quer substituir por uma diversificação com
qualidade. Escolas de identidade débil só podem ser
iguais pois levam apenas a marca das normas centrais e uniformes.
Identidade supõe uma inserção no meio social
que leva à definição de vocações
próprias, que se diversificam ao incorporar as necessidades
locais e as características dos alunos e participação
dos professores e das famílias no desenho institucional considerado
adequado para cada escola.
É
necessário que as escolas tenham identidade como instituições
de educação de jovens e que essa identidade seja diversificada
em função das características do meio social
e da clientela. Diversidade no entanto não se confunde com
fragmentação, muito ao contrário. Inspirada
nos ideias da justiça, a diversidade reconhece que para alcançar
a igualdade não bastam oportunidades iguais. É necessário
também tratamento diferenciado. Dessa forma a diversidade
da escola média é necessária para contemplar
as desigualdades nos pontos de partida de seu alunado, que requerem
diferenças de tratamento como forma mais eficaz de garantir
a todos um patamar comum nos pontos de chegada.
Será
indispensável portanto que existam mecanismos de avaliação
dos resultados para aferir se os pontos de chegada estão
sendo comuns. E para que tais mecanismos funcionem como sinalizadores
eficazes, deverão ter como referência as competências
de caráter geral que se quer constituir em todos os alunos
e um corpo básico de conteúdos cujo ensino e aprendizagem,
se bem sucedidos, propiciam a constituição de tais
competências. O Sistema de Avaliação da Educação
Básica (SAEB) e, mais recentemente, o Exame Nacional do Ensino
Médio (ENEM), operados pelo MEC; os sistemas de avaliação
já existentes em alguns estados e que tendem a ser criados
nas demais unidades da federação; e os sistemas de
estatísticas e indicadores educacionais, constituem importantes
mecanismos para promover a eficiência e a igualdade.
A
análise dos resultados das avaliações e dos
indicadores de desempenho deverá permitir às escolas,
com apoio das demais instâncias dos sistemas de ensino, avaliar
seus processos, verificar suas debilidades e qualidades, e planejar
a melhoria do processo educativo. Da mesma forma deverá permitir
aos organismos responsáveis pela política educacional
desenvolver mecanismos de compensação que superem
gradativamente as desigualdades educacionais.
* Os
sistemas e os estabelecimentos de ensino médio deverão
criar e desenvolver, com a participação da equipe
docente e da comunidade, alternativas institucionais com identidade
própria, baseadas na missão de educação
do jovem, usando ampla e destemidamente as várias possibilidades
de organização pedagógica, espacial e temporal,
e de articulações e parcerias com instituições
públicas ou privadas, abertas pela LDB, para formular políticas
de ensino focalizadas nessa faixa etária, que contemplem
a formação básica e a preparação
geral para o trabalho, inclusive, se necessário e oportuno,
integrando as séries finais do ensino fundamental com o ensino
médio, em virtude da proximidade de faixa etária do
alunado e das características comuns de especialização
disciplinar que esses segmentos do sistema de ensino guardam entre
si.
* Os
sistemas deverão fomentar no conjunto dos estabelecimento
de ensino médio, e cada um deles, sempre que possível,
na sua organização curricular, uma ampla diversificação
dos tipos de estudos disponíveis, estimulando alternativas
que a partir de uma base comum, ofereçam opções
de acordo com as características de seus alunos e as demandas
do meio social: dos estudos mais abstratos e conceituais aos programas
que alternam formação escolar e experiência
profissional; dos currículos mais humanísticos aos
mais científicos ou artísticos, sem negligenciar em
todos os casos os mecanismos de mobilidade para corrigir erros de
decisão cometidos pelos alunos ou determinados por desigualdade
na oferta de alternativas.
* A
diversificação deverá ser acompanhada de sistemas
de avaliação que permitam o acompanhamento permanente
dos resultados, tomando como referência as competências
básicas a serem alcançadas por todos os alunos, de
acordo com a LDB, as presentes diretrizes e as propostas pedagógicas
das escolas.
A
eficácia dessas diretrizes supõe a existência
de autonomia das instâncias regionais dos sistemas de ensino
público e sobretudo dos estabelecimentos. A autonomia das
escolas é, mais que uma diretriz, um mandamento da LDB. As
diretrizes neste caso buscam indicar alguns atributos para evitar
dois riscos: o primeiro seria burocratizá-la, transformando-a
em mais um mecanismo de controle prévio, tão ao gosto
das burocracias centrais da educação; o segundo seria
transformar a autonomia em outra forma de criar privilégios
que produzem exclusão.
Em
relação ao risco de burocratização é
preciso destacar que a LDB vincula autonomia e proposta pedagógica.
Na verdade, a proposta pedagógica é a forma pela qual
a autonomia se exerce. E a proposta pedagógica não
é uma "norma", nem um documento ou formulário
a ser preenchido. Não obedece a prazos formais nem deve seguir
especificações padronizadas. Sua eficácia depende
de conseguir por em prática um processo permanente de mobilização
de "corações e mentes" para alcançar
objetivos compartilhados.
As
instâncias centrais dos sistemas de ensino precisam entender
que existe um espaço de decisão privativo da escola
e do professor em sala de aula que resiste aos controles formais.
A legitimidade e eficácia de qualquer intervenção
externa nesse espaço privativo depende de convencer a todos
do de seu valor para a ação pedagógica. Vale
dizer que a proposta pedagógica não existe sem um
forte protagonismo do professor e sem que este dela se aproprie.
Seria
desastroso, nesse sentido, transformar em obrigação
a incumbência que a LDB atribui à escola de decidir
sobre sua proposta pedagógica, porque isto ativaria os sempre
presentes anticorpos da resistência ou da ritualização.
Contrariamente, a proposta pedagógica para cuja decisão
a escola exerce sua autonomia, deve expressar um acordo no qual
as instâncias centrais serão parceiras facilitadoras
do árduo exercício de explicitar, debater e formar
consenso sobre objetivos, visando potencializar recursos. A autonomia
escolar portanto… não implica na omissão do Estado.
Mudam-se os papéis. Os órgãos centrais passam
a exercer funções de formulação das
diretrizes da política educacional e assessoramento à
implementação dessas políticas.
Já
se disse que salvo exceções das grandes escolas de
elite, acadêmicas ou técnicas, o ensino público
médio no Brasil não tem identidade institucional própria.
Expandiu-se às custas de espaços físicos e
recursos financeiros e pedagógicos do ensino fundamental
qual passageiro clandestino de um navio de carências. Contraditoriamente
essa distorção pode agora ser uma vantagem.
O
futuro está aberto para o aparecimento de muitas formas de
organização do ensino médio sob o princípio
da flexibilidade e da autonomia consagrados pela LDB. Teremos de
usar essa vantagem para estimular identidades escolares mais libertas
da padronização burocrática que formulem e
implementem propostas pedagógicas próprias, inclusive
de articulação do ensino médio com a educação
profissional.
O
segundo risco potencial é o de que a autonomia venha a reforçar
privilégios e exclusões. Sobre este deve-se observar
que a autonomia subordina-se aos princípios e diretrizes
indicados na lei e apresentados nesta deliberação
em seus desdobramentos pedagógicos, com destaque para o acolhimento
da diversidade de alunos e professores, para os ideais da política
da igualdade e para a solidariedade como elemento constitutivo das
identidades. Como alerta Azanha , …a autonomia escolar desligada
dos pressupostos éticos da tarefa educativa poderá
até favorecer a emergência e o reforço de sentimentos
e atitudes contrários à convivência democrática.
A
competência dos sistemas para definir e implementar políticas
de educação média, legitima-se na observação
de prioridades e formas de financiamento que contemplem o interesse
da maioria. No âmbito escolar a autonomia deve refletir o
compromisso da proposta pedagógica com a aprendizagem dos
alunos pelo uso equânime do tempo, do espaço físico,
das instalações e equipamentos, dos recursos financeiros,
didáticos e humanos.
Na
sala de aula a autonomia tem como pressuposto, além da capacidade
didática do professor, seu compromisso e, por que não
dizer, cumplicidade com os alunos, que faz do trabalho cotidiano
de ensinar um permanente voto de confiança na capacidade
de todos para aprender. O professor como profissional construirá
sua identidade com ética e autonomia se, inspirado na estética
da sensibilidade buscar a qualidade e o aprimoramento da aprendizagem
dos alunos e inspirado pela política da igualdade desenvolver
um esforço continuado para garantir a todos oportunidades
iguais de aprendizagem e tratamento adequado às suas características
pessoais.
Por
essa razão a autonomia depende de qualificação
permanente dos que trabalham na escola, em especial dos professores.
Sem a garantia de condições para que os professores
aprendam a aprender e continuem aprendendo, a proposta pedagógica
corre o risco de tornar-se mais um ritual. E como toda prática
ritualizada terminará servindo de artifício para dissimular
a falta de conhecimento e capacitação no fazer didático.
A
melhor forma de verificar esses compromissos é instituir
mecanismos de prestação de contas que facilitem a
"responsabilização" dos envolvidos. Alguém
já disse que precisamos traduzir para o português o
termo «accountability» com o pleno significado que tem: processo
pelo qual uma pessoa, organismo ou instituição presta
contas e assume a responsabilidade por seus resultados para seus
constituintes, financiadores, usuários ou clientes.
Mesmo
não dispondo de correspondência lingüística
precisa, é disto que trata esta diretriz: "responsabilização",
avaliação de processos e de resultados, participação
dos interessados, divulgação de informações,
que imprimam transparência às ações dos
gestores, diretores, professores, para que a sociedade em geral
e os alunos e suas famílias em particular, participem e acompanhem
as decisões sobre objetivos, prioridades e uso dos recursos.
Mais
uma vez portanto destaca-se a importância dos sistemas de
avaliação de resultados e de indicadores educacionais
que já estão sendo operados, ou os que venham a se
instituir. Para a identidade e a diversidade, a informação
é indispensável na garantia da igualdade de resultados.
Para a autonomia ela é condição de transparência
da gestão educacional e clareza da responsabilidade pelos
resultados.
Mas
os sistemas de avaliação e indicadores educacionais
só cumprirão satisfatoriamente essas duas funções
complementares, se todas as informações por eles produzidas
– resultados de provas de rendimento, estatísticas e outras
– forem públicas, no sentido de serem apropriadas pelos interessados,
dos membros da comunidade escolar à opinião pública
em geral.
* O
exercício pleno da autonomia se manifesta na formulação
de uma proposta pedagógica própria, direito de toda
instituição escolar. Essa vinculação
deve ser permanentemente reforçada buscando evitar que as
instâncias centrais do sistema educacional burocratizem e
ritualizem aquilo que no espírito da lei deve ser antes de
mais nada expressão de liberdade e iniciativa, e que por
essa razão não podem prescindir do protagonismo de
todos os elementos da escola, em especial dos professores.
* A
proposta pedagógica deve refletir o melhor equacionamento
possível entre recursos humanos, financeiros, técnicos,
didáticos e físicos, para garantir tempos, espaços,
situações de interação, formas de organização
da aprendizagem e de inserção da escola no seu ambiente
social, que promovam a aquisição dos conhecimentos,
competências e valores previstos na lei, apresentados nestas
diretrizes, e constantes da sua proposta pedagógica.
* A
proposta pedagógica antes de tudo deve ser simples: O
projeto pedagógico da escola é apenas uma oportunidade
para que algumas coisas aconteçam e dentre elas o seguinte:
tomada de consciência dos principais problemas da escola,
das possibilidades de solução e definição
das responsabilidades coletivas e pessoais para eliminar ou atenuar
as falhas detectadas. Nada mais, porém isso é muito
e muito difícil.
* A
proposta pedagógica deve ser acompanhada por procedimentos
de avaliação de processos e produtos, divulgação
dos resultados e mecanismos de prestação de contas.
4.2
Um Currículo Voltado Para As Competências Básicas
Do
ponto de vista legal não há mais duas funções
difíceis de conciliar para o ensino médio, nos termos
em que estabelecia a Lei 5692/71: preparar para a continuidade de
estudos e habilitar para o exercício de uma profissão.
A duplicidade de demanda continuará existindo porque a idade
de conclusão do ensino fundamental coincide com a definição
de um projeto de vida, fortemente determinado pelas condições
econômicas da família e, em menor grau, pelas características
pessoais. Entre os que podem custear uma carreira educacional mais
longa esse projeto abrigará um percurso que posterga o desafio
da sobrevivência material para depois do curso superior. Entre
aqueles que precisam arcar com sua subsistência precocemente
ele demandará a inserção no mercado de trabalho
logo após a conclusão do ensino obrigatório,
durante o ensino médio ou imediatamente depois deste último.
Vale
lembrar no entanto que, mesmo nesses casos, o percurso educacional
pode não excluir, necessariamente, a continuidade dos estudos.
Ao contrário, para muitos, o trabalho se situa no projeto
de vida como uma estratégia para tornar sustentável
financeiramente um percurso educacional mais ambicioso. E em qualquer
de suas variantes, o futuro do jovem e da jovem deste final de século
será sempre um projeto em aberto, podendo incluir períodos
de aprendizagem – de nível superior ou não – intercalados
com experiências de trabalho produtivo de diferente natureza,
além das escolhas relacionadas à sua vida pessoal:
constituir família, participar da comunidade, eleger princípios
de consumo, de cultura e lazer, de orientação política,
entre outros. A condução autônoma desse projeto
de vida reclama uma escola média de sólida formação
geral.
Mas
o significado de educação geral no nível médio,
segundo o espírito da LDB, nada tem a ver com o ensino enciclopedista
e academicista dos currículos de ensino médio tradicionais,
reféns do exame vestibular. Vale a pena examinar o já
citado artigo 35 da lei, na ótica pedagógica.
Enquanto
aprofundamento dos conhecimentos já adquiridos, o perfil
pedagógico do ensino médio tem como ponto de partida
o que a LDB estabelece em seu Artigo 32 como objetivo do ensino
fundamental. Deverá assim continuar o processo de desenvolvimento
da capacidade de aprender com destaque para o aperfeiçoamento
do uso das linguagens como meios de constituição
dos conhecimentos, da compreensão e da formação
de atitudes e valores.
O
trabalho e a cidadania são previstos como os principais contextos
nos quais a capacidade de continuar aprendendo deve se aplicar,
a fim de que o educando possa adaptar-se às condições
em mudança na sociedade, especificamente no mundo das ocupações.
A LDB neste sentido é clara: em lugar de estabelecer disciplinas
ou conteúdos específicos, destaca competências
de caráter geral das quais a capacidade de aprender é
decisiva. O aprimoramento do educando como pessoa humana destaca
a ética, a autonomia intelectual e o pensamento crítico.
Em outras palavras, convoca a constituição de uma
identidade autônoma.
Ao
propor a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos
do processo produtivo, a LDB insere a experiência cotidiana
e o trabalho no currículo do ensino médio como um
todo e não apenas na sua a base comum, como elementos que
facilitarão a tarefa educativa de explicitar a relação
entre teoria e prática. Sobre este último aspecto,
dada sua importância para as presentes diretrizes, vale a
pena deter-se.
Os
processos produtivos dizem respeito a todos os bens, serviços
e conhecimentos com os quais o aluno se relaciona no seu dia a dia
bem como àqueles processos com os quais se relacionará
mais sistematicamente na sua formação profissional.
Para fazer a ponte entre teoria e prática, de modo a entender
como a prática (processo produtivo), está ancorada
na teoria (fundamentos científico-tecnológicos), é
preciso que a escola seja uma experiência permanente de estabelecer
relações entre o aprendido e o observado, seja espontaneamente,
no cotidiano em geral, seja sistematicamente no contexto específico
de um trabalho e suas tarefas laborais.
Castro,
ao analisar o ensino médio de formação geral,
observa: Não se trata nem de profissionalizar nem de deitar
água para fazer mais rala a teoria. Trata-se, isso sim, de
ensinar melhor a teoria – qualquer que seja – de forma bem ancorada
na prática. As pontes entre a teoria e a prática têm
que ser construídas cuidadosamente e de forma explícita.
Para Castro essas pontes implicam em fazer a relação,
por exemplo, entre o que se aprendeu na aula de matemática
na segunda-feira com a lição sobre atrito na aula
de física da terça e com a sua observação
de um automóvel cantando pneus na tarde da quarta. E
conclui afirmando que …para a maioria dos alunos, infelizmente,
ou a escola o ajuda a fazer estas pontes ou elas permanecerão
sem ser feitas, perdendo-se assim a essência do que é
uma boa educação.
Para
dar conta desse mandato, a organização curricular
do ensino médio deve ser orientada por alguns pressupostos
indicados a seguir.
- Visão
orgânica do conhecimento, afinada com as mutações
surpreendentes que o acesso à informação
está causando no modo de abordar, analisar, explicar e
prever a realidade, tão bem ilustradas no hipertexto que
cada vez mais entremeia o texto dos discursos, das falas e das
construções conceituais.
- Disposição
para perseguir essa visão organizando e tratando os conteúdos
do ensino e as situações de aprendizagem, de modo
a destacar as múltiplas interações entre
as disciplinas do currículo.
- Abertura
e sensibilidade para identificar as relações que
existem entre os conteúdos do ensino e das situações
de aprendizagem com os muitos contextos de vida social e pessoal,
de modo a estabelecer uma relação ativa entre o
aluno e o objeto do conhecimento e a desenvolver a capacidade
de relacionar o aprendido com o observado, a teoria com suas conseqüências
e aplicações práticas.
- Reconhecimento
das linguagens como formas de constituição dos conhecimentos
e das identidades, portanto como o elemento chave para constituir
os significados, conceitos, relações, condutas e
valores que a escola deseja transmitir.
- Reconhecimento
e aceitação de que o conhecimento é uma construção
coletiva, forjada socio-interativamente na sala de aula, no trabalho,
na família e em todas as demais formas de convivência.
- Reconhecimento
de que a aprendizagem mobiliza afetos, emoções e
relações com seus pares, além das cognições
e habilidades intelectuais.
Com
essa leitura, a formação básica a ser buscada
no ensino médio se realizará mais pela constituição
de competências, habilidades e disposições de
condutas do que pela quantidade de informação. Aprender
a aprender e a pensar, a relacionar o conhecimento com dados da
experiência cotidiana, a dar significado ao aprendido e a
captar o significado do mundo, a fazer a ponte entre teoria e prática,
a fundamentar a crítica, a argumentar com base em fatos,
a lidar com o sentimento que a aprendizagem desperta.
Uma
organização curricular que responda a esses desafios
requer:
- desbastar
o currículo enciclopédico, congestionado de informações,
priorizando conhecimentos e competências de tipo geral,
que são pré requisito tanto para a inserção
profissional mais precoce quanto para a continuidade de estudos,
entre as quais se destaca a capacidade de continuar aprendendo;
- (re)
significar os conteúdos curriculares como meios para constituição
de competências e valores, e não como objetivos do
ensino em si mesmos;
- trabalhar
as linguagens não apenas como formas de expressão
e comunicação mas como constituidoras de significados,
conhecimentos e valores;
- adotar
estratégias de ensino diversificadas que mobilizem menos
a memória e mais o raciocínio e outras competências
cognitivas superiores, bem como potencializem a interação
entre aluno-professor e aluno-aluno para a permanente negociação
dos significados dos conteúdos curriculares, de forma a
propiciar formas coletivas de construção do conhecimento;
- estimular
todos os procedimentos e atividades que permitam ao aluno reconstruir
ou "reiventar" o conhecimento didaticamente transposto
para a sala de aula, entre eles a experimentação,
a execução de projetos, o protagonismo em situações
sociais;
- organizar
os conteúdos de ensino em estudos ou áreas interdisciplinares
e projetos que melhor abriguem a visão orgânica do
conhecimento e o diálogo permanente entre as diferentes
áreas do saber;
- tratar
os conteúdos de ensino de modo contextualizado, aproveitando
sempre as relações entre conteúdos e contexto
para dar significado ao aprendido, estimular o protagonismo do
aluno e estimulá-lo a ter autonomia intelectual;
- lidar
com os sentimentos associados às situações
de aprendizagem para facilitar a relação do aluno
com o conhecimento.
A
doutrina de currículo que sustenta a proposta de organização
e tratamento dos conteúdos com essas características
envolve os conceitos de interdisciplinaridade e contextualização
que requerem exame mais detido.
4.3
Interdisciplinaridade
A
interdisciplinaridade deve ir além da mera justaposição
de disciplinas e ao mesmo tempo evitar a diluição
das mesmas em generalidades. De fato será principalmente
na possibilidade de relacionar as disciplinas em atividades ou projetos
de estudo, pesquisa e ação, que a interdisciplinaridade
poderá ser uma prática pedagógica e didática
adequada aos objetivos do ensino médio.
O
conceito de interdisciplinaridade fica mais claro quando se considera
o fato trivial de que todo conhecimento mantém um diálogo
permanente com outros conhecimentos, que pode ser de questionamento,
de confirmação, de complementação, de
negação, de ampliação, de iluminação
de aspectos não distinguidos.
Tendo
presente este fato é fácil constatar que algumas disciplinas
se identificam e aproximam, outras se diferenciam e distanciam,
em vários aspectos: pelos métodos e procedimentos
que envolvem, pelo objeto que pretendem conhecer, ou ainda pelo
tipo de habilidades que mobilizam naquele que a investiga, conhece,
ensina ou aprende.
A
interdisciplinaridade também está envolvida quando
os sujeitos que conhecem, ensinam e aprendem, sentem necessidade
de procedimentos que, numa única visão disciplinar
podem parecer heterodoxos mas fazem sentido quando chamados a dar
conta de temas complexos. Se alguns procedimentos artísticos
podem parecer profecias na perspectiva científica, também
é verdade que a foto do cogumelo resultante da explosão
nuclear também explica, de um modo diferente da física,
o significado da bomba atômica.
Nesta
multiplicidade de interações e negações
recíprocas, a relação entre as disciplinas
tradicionais pode ir da simples comunicação de idéias
até a integração mútua de conceitos
diretores, da epistemologia, da terminologia, da metodologia e dos
procedimentos de coleta e análise de dados. Ou pode efetuar-se,
mais singelamente, pela constatação de como são
diversas as várias formas de conhecer. Pois até mesmo
esta "interdisciplinaridade singela" é importante
para que os alunos aprendam a olhar o mesmo objeto sob perspectivas
diferentes.
É
importante enfatizar que a interdisciplinaridade supõe um
eixo integrador que pode ser o objeto de conhecimento, um projeto
de investigação, um plano de intervenção.
Nesse sentido ela deve partir da necessidade sentida pelas escolas,
professores e alunos de explicar, compreender, intervir, mudar,
prever, algo que desafia uma disciplina isolada e atrai a atenção
de mais de um olhar, talvez vários. Explicação,
compreensão, intervenção, são processos
que requerem um conhecimento que vai além da descrição
da realidade e mobiliza competências cognitivas para deduzir,
tirar inferências ou fazer previsões a partir do fato
observado.
A
partir do problema gerador do projeto, que pode ser um experimento,
um plano de ação para intervir na realidade ou uma
atividade, são identificados os conceitos de cada disciplina
que podem contribuir para descrevê-lo, explicá-lo e
prever soluções. Dessa forma o projeto é interdisciplinar
na sua concepção, execução e avaliação,
e os conceitos utilizados podem ser formalizados, sistematizados
e registrados no âmbito das disciplinas que contribuem para
o seu desenvolvimento. O exemplo do projeto é interessante
para mostrar que a interdisciplinaridade não dilui as disciplinas,
ao contrário, mantém sua individualidade. Mas integra
as disciplinas a partir da compreensão das múltiplas
causas ou fatores que intervêm sobre a realidade e trabalha
todas as linguagens necessárias para a constituição
de conhecimentos, comunicação e negociação
de significados e registro sistemático de resultados.
Essa
integração entre as disciplinas para buscar compreender,
prever, transformar a realidade aproxima-se daquilo que Piaget chama
de estruturas subjacentes. O autor destaca um aspecto importante
neste caso: a compreensão dessas estruturas subjacentes não
dispensa o conhecimento especializado, ao contrário. Somente
o domínio de uma dada área permite superar o conhecimento
meramente descritivo para captar suas conexões com outras
áreas do saber na busca de explicações.
Segundo
Piaget, a excessiva "disciplinarização"
…se explica, com efeito, pelos preconceitos positivistas. Em
uma perspectiva onde apenas contam os observáveis, que cumpre
simplesmente descrever e analisar para então daí extrair
as leis funcionais, é inevitável que as diferentes
disciplinas pareçam separadas por fronteiras mais ou menos
definidas ou mesmo fixas, já que estas se relacionam com
a diversidade das categorias de observáveis que, por sua
vez, estão relacionadas com nossos instrumentos subjetivos
e objetivos de registro (percepções e aparelhos)...
Por outro lado, logo que, ao violar as regras positivistas, ....
se procura explicar os fenômenos e suas leis, ao invés
de apenas descrevê-los, forçosamente se estará
ultrapassando as fronteiras do observável, já que
toda causalidade decorre da necessidade inferencial, isto é,
de deduções e estruturas operatórias irredutíveis
à simples constatação... Nesse caso, a realidade
fundamental não é mais o fenômeno observável,
e sim a estrutura subjacente, reconstituída por dedução
e que fornece uma explicação para os dados observados.
Mas, por isso mesmo, tendem a desaparecer as fronteiras entre as
disciplinas, pois as estruturas ou são comuns (tal como entre
a Física e a Química...) ou solidárias umas
com as outras (como sem dúvida haverá de ser o caso
entre a Biologia e a Físico-Química).
A
interdisciplinaridade pode ser também compreendida se considerarmos
a relação entre o pensamento e a linguagem, descobertas
pelo estudos socio-interacionistas do desenvolvimento e da aprendizagem.
Esses estudos revelam que, seja nas situações de aprendizagem
espontânea, seja naquelas estruturadas ou escolares, há
uma relação sempre presente entre os conceitos e as
palavras (ou linguagens) que os expressam, de tal forma que …
uma palavra desprovida de pensamento é uma coisa morta, e
um pensamento não expresso por palavras permanece na sombra.
Todas as linguagens trabalhadas pela escola, portanto, são
por natureza "interdisciplinares" com as demais áreas
do currículo: é pela linguagem – verbal, visual, sonora,
matemática, corporal, ou outra – que os conteúdos
curriculares se constituem em conhecimentos, isto é, significados
que ao serem formalizados por alguma linguagem, tornam-se conscientes
de si mesmos e deliberados.
Sem
a pretensão de esgotar o amplo campo de possibilidades que
a interação entre linguagem e pensamento abre para
a pedagogia da interdisciplinaridade, alguns exemplos poderiam ser
lembrados: a linguagem verbal como um dos processos de constituição
de conhecimento das ciências humanas e o exercício
destas últimas como forma de aperfeiçoar o emprego
da linguagem verbal formal; a matemática como um dos recursos
constitutivos dos conceitos das ciências naturais e a explicação
das leis naturais como exercício que desenvolve o pensamento
matemático; a informática como recurso que pode contribuir
para reorganizar e estabelecer novas relações entre
conceitos científicos e estes como elementos explicativos
dos princípios da informática; as artes como constitutivas
do pensamento simbólico, metafórico e criativo, indispensáveis
no exercício de análise, síntese e solução
de problemas, competências que se busca desenvolver em todas
as disciplinas.
Outra
observação feita pelos estudos de Vigotsky refere-se
à existência de uma interdependência entre e
a aprendizagem dos conteúdos curriculares e o desenvolvimento
cognitivo. Embora já não se aceitem as idéias
herbatianas da disciplina formal, que supunha um associação
linear entre cada disciplina escolar e um tipo específico
de capacidade mental, também não é razoável
supor que o desenvolvimento cognitivo se dá de forma independente
da aprendizagem em geral e, em particular, da aprendizagem sistemática
organizada pela escola.
Investigações
sobre a aprendizagem de conceitos científicos em crianças
e adolescentes indicam que a aprendizagem funciona como antecipação
do desenvolvimento de capacidades intelectuais. Isso ocorre porque
os pré-requisitos psicológicos para o aprendizado
de diferentes matérias escolares são, em grande parte,
os mesmos; o aprendizado de uma matéria influencia o desenvolvimento
de funções superiores para além dos limites
dessa matéria específica; as principais funções
psíquicas envolvidas no estudo de várias matérias
são interdependentes – suas bases comuns são a consciência
e o domínio deliberado, as contribuições principais
dos anos escolares. A partir dessas descobertas, conclui-se que
todas as matérias escolares básicas atuam como uma
disciplina formal, cada uma facilitando o aprendizado das outras…
Essa
"solidariedade didática" foi encontrada por Chervel
no estudo que realizou da história dos "ensinos"
ou das disciplinas escolares, no sistema de ensino francês.
Um dado interessante encontrado por esse autor foi o significado
diferente que as disciplinas vão adquirindo no decorrer de
dois séculos, mesmo mantendo o mesmo nome nas grades curriculares.
Nesse período, várias foram criadas, outras desapareceram,
embora os conteúdos de seu ensino e as capacidades intelectuais
que visavam constituir tenham continuado a ser desenvolvidas por
meio de outros conteúdos com nomes idênticos ou por
meio de conteúdos idênticos sob nomes diferentes.
Foi
assim que durante quase um século a disciplina "sistema
de pêsos e medidas" fez parte do currículo da
escola primária e secundária francesa, até
que se consolidasse o sistema métrico decimal imposto à
França no início do Século XIX. Uma vez cumprido
seu papel, desapareceu como disciplina escolar e os conteúdos
e habilidades envolvidos na aprendizagem do sistema de medidas foram
incorporados ao ensino da matemática de onde não mais
se separaram. Da mesma forma a disciplina "redação"
apareceu, desapareceu, incorporada a outras, e reapareceu por diversas
vezes no currículo. Essa transitoriedade das disciplinas
escolares mostra como é epistemologicamente frágil
a sua demarcação rígida nos planos curriculares
e argumenta em favor de uma postura mais flexível e integradora.
4.4
Contextualização
As
múltiplas formas de interação que se pode prever
entre as disciplinas tal como tradicionalmente arroladas nas «grades
curriculares», faz com que toda proposição de áreas
ou agrupamento das mesmas, seja resultado de um corte que carrega
certo grau de arbitrariedade. Não há paradigma curricular
capaz de abarcar a todas. Neste sentido seria desastroso entender
uma proposta de organização por áreas como
fechada ou definitiva. Mais ainda seria submeter uma área
interdisciplinar ao mesmo amordaçamento estanque a que hoje
estão sujeitas as disciplinas tradicionais isoladamente,
quando o importante é ampliar as possibilidades de interação
não apenas entre as disciplinas nucleadas em uma área
como entre as próprias áreas de nucleação.
A contextualização pode ser um recurso para conseguir
esse objetivo.
Contextualizar
o conteúdo que se quer aprendido significa em primeiro lugar
assumir que todo conhecimento envolve uma relação
entre sujeito e objeto. Na escola fundamental ou média o
conhecimento é quase sempre reproduzido das situações
originais nas quais acontece sua produção. Por esta
razão quase sempre o conhecimento escolar se vale de uma
transposição didática para na qual a linguagem
joga papel decisivo.
O
tratamento contextualizado do conhecimento é o recurso que
a escola tem para retirar o aluno da condição de espectador
passivo. Se bem trabalhado permite que, ao longo da transposição
didática, o conteúdo do ensino provoque aprendizagens
significativas que mobilizam o aluno e estabeleçam entre
ele e o objeto do conhecimento uma relação de reciprocidade.
A contextualização evoca por isto áreas, âmbitos
ou dimensões presentes na vida pessoal, social e cultural,
e mobiliza competências cognitivas já adquiridas. As
dimensões de vida ou contextos valorizados explicitamente
pela LDB são o trabalho e a cidadania. As competências
estão indicadas quando a lei prevê um ensino que facilite
a ponte entre a teoria e a prática. É isto também
que propõe Piaget, quando analisa o papel da atividade na
aprendizagem: compreender é inventar, ou reconstruir através
da reinvenção, e será preciso curvar-se ante
tais necessidades se o que se pretende, para o futuro, é
moldar indivíduos capazes de produzir ou de criar, e não
apenas de repetir.
Alguns
exemplos podem ilustrar essa noção. Um deles refere-se
ao uso das língua portuguesa no contexto das diferentes práticas
humanas. O melhor domínio da língua e seus códigos
se alcança quando se entende como ela é utilizada
no contexto da produção do conhecimento científico,
da convivência, do trabalho ou das práticas sociais:
nas relações familiares ou entre companheiros, na
política ou no jornalismo, no contrato de aluguel ou na poesia,
na física ou na filosofia. O mesmo pode acontecer com a matemática.
Uma das formas significativas para dominar a matemática é
entendê-la aplicada na análise de índices econômicos
e estatísticos, nas projeções políticas
ou na estimativa da taxa de juros, associada a todos os significados
pessoais, políticos e sociais que números dessa natureza
carregam.
Outro
exemplo refere-se ao conhecimento científico. Conhecer o
corpo humano não é apenas saber como funcionam os
muitos aparelhos do organismo mas também entender como funciona
o próprio corpo e que conseqüências isso tem em
decisões pessoais da maior importância tais como fazer
dieta, usar drogas, consumir gorduras ou exercer a sexualidade.
A adolescente que aprendeu tudo sobre aparelho reprodutivo mas não
entende o que se passa com seu corpo a cada ciclo mensal não
aprendeu de modo significativo. O mesmo acontece com o jovem que
se equilibra na prancha de surfe em movimento mas não relaciona
isso com as leis da física aprendidas na escola.
Pesquisa
recente com jovens de ensino médio revelou que estes não
vêem nenhuma relação da química com suas
vidas nem com a sociedade, como se o iogurte, os produtos de higiene
pessoal e limpeza, os agrotóxicos ou as fibras sintéticas
de suas roupas, fossem questões de outra esfera de conhecimento,
divorciadas da química que estudam na escola. No caso destes
jovens a química aprendida na escola foi transposta do contexto
de sua produção original, sem que pontes tivessem
sido feitas para contextos que são próximos e significativos.
É provável que por motivo semelhante muitas pessoas
que estudaram física na escola não conseguem entender
como funciona o telefone celular. Ou se desconcertem quando têm
de estabelecer a relação entre o tamanho de um ambiente
e a potência em "btus" do aparelho de ar condicionado
que estão por adquirir.
O
trabalho é o contexto mais importante da experiência
curricular no ensino médio, de acordo com as diretrizes traçadas
pela LDB em seus artigos 35 e 36. O significado desse destaque deve
ser devidamente considerado: na medida em que o ensino médio
é parte integrante da educação básica
e que o trabalho é princípio organizador do currículo,
muda inteiramente a noção tradicional de educação
geral acadêmica ou, melhor dito, academicista. O trabalho
já não é mais limitado ao ensino profissionalizante.
Muito ao contrário, a lei reconhece que nas sociedades contemporâneas
todos, independentemente de sua origem ou destino sócio-profissional,
devem ser educados na perspectiva do trabalho enquanto uma das principais
atividades humanas, enquanto campo de preparação para
escolhas profissionais futuras, enquanto espaço de exercício
de cidadania, enquanto processo de produção de bens,
serviços e conhecimentos com as tarefas laborais que lhes
são próprias.
A
riqueza do contexto do trabalho para dar significado às aprendizagens
da escola média é incomensurável. Desde logo
na experiência da própria aprendizagem como um trabalho
de constituição de conhecimentos, dando à vida
escolar um significado de maior protagonismo e responsabilidade.
Da mesma forma o trabalho é um contexto importante das ciências
humanas e sociais, visando compreendê-lo enquanto produção
de riqueza e forma de interação do ser humano com
a natureza e o mundo social. Mas a contextualização
no mundo do trabalho permite focalizar muito mais todos os demais
conteúdos do ensino médio.
A
produção de serviços de saúde pode ser
o contexto para tratar os conteúdos de biologia, significando
que os conteúdos dessas disciplinas poderão ser tratados
de modo a serem, posteriormente, significativos e úteis a
alunos que se destinem a essas ocupações. A produção
de bens nas áreas de mecânica e eletricidade contextualiza
conteúdos de física com aproveitamento na formação
profissional de técnicos dessas áreas. Do mesmo modo
as competências desenvolvidas nas áreas de linguagens
podem ser contextualizadas na produção de serviços
pessoais ou comunicação e, mais especificamente, no
exercício de atividades tais como tradução,
turismo ou produção de vídeos, serviços
de escritório. Ou ainda os estudos sobre a sociedade e o
indivíduo podem ser contextualizados nas questões
que dizem respeito à organização, à
gestão, ao trabalho de equipe, à liderança,
no contexto de produção de serviços tais como
relações públicas, administração,
publicidade.
Conhecimentos
e competências constituídos de forma assim contextualizada
constituem educação básica, são necessários
para a continuidade de estudos acadêmicos e aproveitáveis
em programas de preparação profissional seqüenciais
ou concomitantes com o ensino médio, sejam eles cursos formais
seja a capacitação em serviço. Na verdade constituem
o que a LDB refere como preparação básica
para o trabalho, tema que será retomado mais adiante.
O
contexto do trabalho é também imprescindível
para a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos
dos processos produtivos a que se refere o artigo 35 da LDB.
Por sua própria natureza de conhecimento aplicado, as tecnologias,
sejam elas das linguagens e comunicação, da informação,
do planejamento e gestão, ou as mais tradicionais, nascidas
no âmbito das ciências da natureza, só podem
ser entendidas de forma significativa se contextualizadas no trabalho.
A este respeito é significativo o fato de que as estratégias
de aprendizagem contextualizada ou "situada", como é
designada na literatura de língua inglesa, nasceram nos programas
de preparação profissional, dos quais se transferiram
depois para as salas de aula tradicionais. Suas características
tal como descritas pela literatura e resumidas por Stein indicam
que a contextualização do conteúdo de ensino
é o que efetivamente ocorre no ensino profissional de boa
qualidade: Na aprendizagem situada os alunos aprendem o conteúdo
por meio de atividades em lugar de adquirirem informação
em unidades específicas organizadas pelos instrutores. O
conteúdo é inerente ao processo de fazer uma tarefa
e não se apresenta separado do barulho, da confusão
e das interações humanas que prevalecem nos ambientes
reais de trabalho.
Outro
contexto relevante indicado pela LDB é o do exercício
da cidadania. Desde logo é preciso que a proposta pedagógica
assuma o fato trivial de que a cidadania não é dever
nem privilégio de uma área específica do currículo
nem deve ficar restrita a um projeto determinado. Exercício
de cidadania é testemunho que se inicia na convivência
cotidiana e deve contaminar toda a organização curricular.
As práticas sociais e políticas e as práticas
culturais e de comunicação são parte integrante
do exercício cidadão, mas a vida pessoal, o cotidiano
e a convivência e as questões ligadas ao meio ambiente,
corpo e saúde também. Trabalhar os conteúdos
das ciências naturais no contexto da cidadania pode significar
um projeto de tratamento da água ou do lixo da escola ou
a participação numa campanha de vacinação,
ou a compreensão de porque as construções despencam
quando os materiais utilizados não têm a resistência
devida. E de quais são os aspectos técnicos, políticos
e éticos envolvidos no trabalho da construção
civil.
Objetivo
semelhante pode ser alcançado se a eleição
do grêmio estudantil for uma oportunidade para conhecer melhor
os sistemas políticos, ou para entender como a matemática
traduz a tendência de voto por meio de um gráfico de
barras, ou para discutir questões éticas relacionadas
à prática eleitoral. Da mesma forma as competências
da área de linguagens podem ser trabalhadas no contexto da
comunicação na sala de aula, da análise da
novela da televisão, dos diferentes usos da língua
dependendo das situações de trabalho, da comunicação
coloquial.
O
contexto que é mais próximo do aluno e mais facilmente
explorável para dar significado aos conteúdos da aprendizagem
é o da vida pessoal, cotidiano e convivência. O aluno
vive num mundo de fatos regidos pelas leis naturais e está
imerso num universo de relações sociais. Está
exposto a informações cada vez mais acessíveis
e rodeado por bens cada vez mais diversificados, produzidos com
materiais sempre novos. Está exposto também a vários
tipos de comunicação pessoal e de massa.
O
cotidiano e as relações estabelecidas com o ambiente
físico e social devem permitir dar significado a qualquer
conteúdo curricular, fazendo a ponte entre o que se aprende
na escola e o que se faz, vive e observa no dia a dia. Aprender
sobre a sociedade, o indivíduo e a cultura e não compreender
ou reconhecer as relações existentes entre adultos
e jovens na própria família, é perder a oportunidade
de descobrir que as ciências também contribuem para
a convivência e a troca afetiva. O respeito ao outro e ao
público, essenciais à cidadania, também se
iniciam nas relações de convivência cotidiana,
na família, na escola, no grupo de amigos.
Na
vida pessoal há um contexto importante o suficiente para
merecer consideração específica que é
o do meio ambiente, corpo e saúde. Condutas ambientalistas
responsáveis subentendem um protagonismo forte no presente,
no meio ambiente imediato da escola, da vizinhança, do lugar
onde se vive. Para desenvolvê-las é importante que
os conhecimentos das ciências, da matemática e das
linguagens sejam relevantes na compreensão das questões
ambientais mais próximas e estimulem a ação
para resolvê-las.
As
visões, fantasias e decisões sobre o próprio
corpo e saúde, base para um desenvolvimento autônomo,
poderão ser melhor orientadas se as aprendizagens da escola
estiverem significativamente relacionadas com as preocupações
comuns na vida de todo jovem: aparência, sexualidade e reprodução,
consumo de drogas, hábitos de alimentação,
limite e capacidade física, repouso, atividade, lazer.
Examinados
os exemplos dados é possível generalizar a contextualização
como recurso para tornar a aprendizagem significativa ao associá-la
com experiências da vida cotidiana ou com os conhecimentos
adquiridos espontaneamente. É preciso no entanto cuidar para
que essa generalização não induza à
banalização, com o risco de perder o essencial da
aprendizagem escolar que é seu caráter sistemático,
consciente e deliberado. Em outras palavras: contextualizar os conteúdos
escolares não é liberá-los do plano abstrato
da transposição didática para aprisioná-los
no espontaneísmo e na cotidianeidade. Para que fique claro
o papel da contextualização é necessário
considerar, como no caso da interdisciplinaridade, seu fundamento
epistemológico e psicológico.
O
jovem, não inicia a aprendizagem escolar partindo do zero,
mas com uma bagagem formada por conceitos já adquiridos espontaneamente,
em geral mais carregados de afetos e valores por resultarem de experiências
pessoais. Ao longo do desenvolvimento aprende-se a abstrair e generalizar
conhecimentos aprendidos espontaneamente, mas é bem mais
difícil formalizá-los ou explicá-los em palavras
porque, diferentemente da experiência escolar, não
são conscientes nem deliberados.
É
possível assim afirmar, reiterando premissas das teorias
interacionistas do desenvolvimento e da aprendizagem, que o desenvolvimento
intelectual baseado na aprendizagem espontânea é ascendente,
isto é, inicia-se de modo inconsciente e até caótico,
de acordo com uma experiência que não é controlada,
e encaminha-se para níveis mais abstratos, formais e conscientes.
Ao iniciar uma determinada experiência de aprendizagem escolar,
portanto, um aluno pode até saber os conceitos envolvidos
na mesma, mas não sabe que os tem porque neste caso, vale
a afirmação de que a análise da realidade
com a ajuda de conceitos precede a análise dos próprios
conceitos.
Na
escola, os conteúdos curriculares já são apresentados
ao aluno na sua forma mais abstrata, formulados em graus crescentes
de generalidade. A sua relação com esse conhecimento
é portanto mais longínqua, mais fortemente mediada
pela linguagem externa, menos pessoal. Nestas circunstâncias,
ainda que aprendido e satisfatoriamente formulado em nível
de abstração aceitável, o conhecimento tem
muita dificuldade para aplicar-se a novas situações
concretas que devem ser entendidas nos mesmos termos abstratos pelos
quais o conceito é formulado.
Da
mesma forma como foi longo o processo pelo qual os conceitos espontâneos
ganharam níveis de generalidade até serem entendidos
e formulados de modo abstrato, é longo e árduo o processo
inverso, de transição do abstrato para o concreto
e particular. Isso sugere que o processo de aquisição
do conhecimento sistemático escolar tem uma direção
oposta à do conhecimento espontâneo: descendente, de
níveis formais e abstratos para aplicações
particulares.
Ambos
processos de desenvolvimento, do conhecimento espontâneo ao
conhecimento abstrato e deliberado e, deste último para a
compreensão e aplicação a situações
particulares concretas, não são independentes. Já
porque a realidade à qual se referem é a mesma – o
mundo físico, o mundo social, as relações pessoais
– já porque em ambos os casos a linguagem joga papel decisivo
como elemento constituidor. Na prática, o conhecimento espontâneo
auxilia a dar significado ao conhecimento escolar. Este último,
por sua vez, reorganiza o conhecimento espontâneo e estimula
o processo de sua abstração.
Quando
se recomenda a contextualização como princípio
de organização curricular, o que se pretende é
facilitar a aplicação da experiência escolar
para a compreensão da experiência pessoal em níveis
mais sistemáticos e abstratos e o aproveitamento da experiência
pessoal para facilitar o processo de concreção dos
conhecimentos abstratos que a escola trabalha. Isto significa que
a ponte entre teoria e prática, recomendada pela LDB e comentada
por Castro, deve ser de mão dupla. Em ambas direções
estão em jôgo competências cognitivas básicas:
raciocínio abstrato, capacidade de compreensão de
situações novas queé base da solução
de problemas, para mencionar apenas duas.
Não
se entenda portanto a contextualização como banalização
do conteúdo das disciplinas, numa perspectiva espontaneísta.
Mas como recurso pedagógico para tornar a constituição
de conhecimentos um processo permanente de formação
de capacidades intelectuais superiores. Capacidades que permitam
transitar inteligentemente do mundo da experiência imediata
e espontânea para o plano das abstrações e deste
para a reorganização da experiência imediata
de forma a aprender que situações particulares e concretas
podem tem uma estrutura geral.
De
outra coisa não trata Piaget quando, a propósito do
ensino da matemática observa que muitas operações
lógico-matemáticas já estão presentes
na criança antes da idade escolar sob formas elementares
ou triviais mas não menos significativas. Mas acrescenta,
em seguida: Uma coisa é aprender na ação
e assim aplicar praticamente certas operações, outra
é tomar consciência das mesmas para delas extrair um
conhecimento reflexivo e teórico, de tal forma que nem os
alunos nem os professores cheguem a suspeitar de que o conteúdo
do ensino ministrado se pudesse apoiar em qualquer tipo de estruturas
naturais.
Para
concluir estas considerações sobre a contextualização
é interessante citar a síntese apresentada por Stein
sobre as características da aprendizagem contextualizada:
em relação ao conteúdo busca desenvolver o
pensamento de ordem superior em lugar da aquisição
de fatos independentes da vida real; preocupa-se mais com a aplicação
do que com a memorização; sobre o processo assume
que a aprendizagem é sócio-interativa, envolve necessariamente
os valores, as relações de poder, a negociação
permanente do próprio significado do conteúdo entre
os alunos envolvidos; em relação ao contexto propõe
não apenas trazer a vida real para a sala de aula mas criar
as condições para que os alunos (re)experienciem os
eventos da vida real a partir de múltiplas perspectivas.
A
reorganização da experiência cotidiana e expontânea
tem assim um resultado importante para a educação
pois é principalmente nela que intervêm os afetos e
valores. É com base nela, embora não exclusivamente,
que se constróem as visões do outro e do mundo, pois
uma parte relevante da experiência espontânea é
feita de interação com os outros, de influencia dos
meios de comunicação, de convivência social,
pelos quais os significados são negociados, para usar
o termo de Stein.
Na
medida em que a contextualização facilita a significado
da experiência de aprendizagem escolar e a (re) significação
da aprendizagem baseada na experiência espontânea, ela
pode – e deve – questionar os dados desta última: os problemas
ambientais, os preconceitos e estereótipos, os conteúdos
da mídia, a violência nas relações pessoais,
os conceitos de verdadeiro e falso na política, e assim por
diante. Dessa forma, voltando a alguns exemplos dados, se a aprendizagem
do sistema reprodutivo não leva a questionar os mitos da
feminilidade e da masculinidade, além de não ser significativa
essa aprendizagem em nada colaborou para reorganizar o aprendido
espontaneamente. Se a aprendizagem das ciências não
facilitar o esforço para distinguir entre o fato e a interpretação
ou identificar as falhas da observação cotidiana,
se não facilitar a reprodução de situações
nas quais o emprego da ciência depende da participação
e interação entre as pessoas e destas com um conjunto
de equipamentos e materiais, pode-se dizer que não criou
competências para abstrair de forma inteligente o mundo da
experiência imediata.
4.5
A Importância Da Escola
Interdisciplinaridade
e Contextualização são recursos complementares
para ampliar as inúmeras possibilidades de interação
entre disciplinas e entre as áreas nas quais disciplinas
venham a ser agrupadas. Juntas elas se comparam a um trançado
cujos fios estão dados mas cujo resultado final pode ter
infinitos padrões de entrelaçamento e muitas alternativas
para combinar cores e texturas. De forma alguma se espera que uma
escola esgote todas as possibilidades. Mas se recomenda com veemência
que ela exerça o direito de escolher um desenho para o seu
trançado e que por mais simples que venha a ser ele expresse
suas próprias decisões e resulte num cesto generoso
para acolher aquilo que a LDB recomenda em seu Artigo 26: as
características regionais e locais da sociedade, da cultura,
da economia e da clientela.
Os
ensinamentos da psicologia de Piaget e Vigotsky foram convocados
para explicar a interdisciplinaridade e a contextualização
porque ambas as perspectivas teóricas se complementam naquilo
que, para estas DCNEM é o mais importante: a importância
da aprendizagem sistemática, portanto da escola, para o desenvolvimento
do adolescente.
A
escola é a agencia que especificamente está dedicada
à tarefa de organizar o conhecimento e apresentá-lo
aos alunos pela mediação das linguagens de modo a
que seja aprendido. Ao professor – pela linguagem que fala ou que
manipula nos recursos didáticos – cabe uma função
insubstituível no domínio mais avançado do
conhecimento que o aluno vai constituindo. Estes, por sua vez, estimulam
o próprio desenvolvimento a patamares superiores.
Se
a constituição de conhecimentos com significado deliberado,
que caracteriza a aprendizagem escolar, é antecipação
do desenvolvimento de capacidades mentais superiores – premissa
cara a Vigotsky – o trabalho que a escola realiza ou deve realizar,
é insubstituível na aquisição de competências
cognitivas complexas, cuja importância vem sendo cada vez
mais enfatizada: autonomia intelectual, criatividade, solução
de problemas, análise e prospecção, entre outras.
Essa afirmação é ainda mais verdadeira para
jovens provenientes de ambientes culturais e sociais em que o uso
da linguagem é restrito e a sistematização
do conhecimento espontaneo raramente acontece.
Outra
coisa não diz Piaget interpretando os mandamentos da Declaração
Universal dos Direitos Humanos no capítulo da educação:
Todo ser humano tem o direito de ser colocado, durante sua formação,
em um meio escolar de tal ordem que lhe seja possível chegar
ao ponto de elaborar, até a conclusão, os instrumentos
indispensáveis de adaptação que são
as operações da lógica. E vai mais longe
o mestre de Genebra ao relacionar a autonomia moral com a autonomia
intelectual, que implica no pleno desenvolvimento das operações
da lógica.
Mesmo
sem que a escola se dê conta sua proposta pedagógica
tem uma resposta para a pergunta que tanto Sócrates quanto
Protágoras procuram responder: é possível educar
pessoas que além das "artes" – único talento
que Prometeu conseguiu roubar aos deuses para repartir à
humanidade – dominem também a justiça e o respeito,
que Zeus decidiu acrescentar àqueles talentos por serem a
base da amizade, a fim de que os homens pudessem conviver para sobreviver?
Vigotsky, com as capacidades intelectuais superiores, Piaget
com as operações da lógica, Sócrates
com a sabedoria, afirmam que sim e dão grande alento
para aqueles que teimosamente continuam apostando na borboleta.
4.6
Base Nacional Comum E Parte Diversificada
Interdisciplinaridade
e Contextualização formam o eixo organizador da doutrina
curricular expressa na LDB. Elas abrigam uma visão do conhecimento
e das formas de tratá-lo para ensinar e para aprender que
permite dar significado integrador a duas outras dimensões
do currículo de forma a evitar transformá-las em novas
dualidades ou reforçar as já existentes: base nacional
comum/parte diversificada, e formação geral/preparação
básica para o trabalho.
A
primeira dimensão é explicitada no Artigo 26 da LDB
que afirma: Os currículos do ensino fundamental e médio
devem ter uma base nacional comum a ser complementada, em cada sistema
de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada,
exigida pelas características regionais e locais da sociedade,
da cultura, da economia e da clientela. À luz das diretrizes
pedagógicas apresentadas, cabe observar a este respeito:
- tudo
o que se disse até aqui sobre a nova missão do ensino
médio, seus fundamentos axiológicos e suas diretrizes
pedagógicas, se aplica para ambas as «partes», tanto a
"nacional comum" como a "diversificada" pois
numa perspectiva de organicidade, integração e contextualização
do conhecimento não faz sentido que elas estejam divorciadas;
- a
LDB buscou preservar no seu Artigo 26 a autonomia da proposta
pedagógica dos sistemas e das unidades escolares para contextualizar
os conteúdos curriculares de acordo com as características
regionais, locais e da vida dos seus alunos; assim entendida,
a parte diversificada é uma dimensão do currículo
e a contextualização, pode ser a forma de organizá-la
sem criar divorcio ou dualidade com a base nacional comum;
- a
parte diversificada deverá portanto ser organicamente integrada
à base nacional comum para que o currículo faça
sentido como um todo e essa integração ocorrerá,
entre outras formas, por enriquecimento, ampliação,
diversificação, desdobramento, podendo incluir todos
os conteúdos da base nacional comum ou apenas parte deles,
selecionados, nucleados em áreas ou não, sempre
de acordo com a proposta pedagógica do estabelecimento;
- a
parte diversificada poderá ser desenvolvida por meio de
projetos e estudos focalizados em problemas selecionados pela
equipe escolar, de forma que os mesmos sejam organicamente integrados
ao currículo, superando definitavamente a concepção
do projeto como atividade "extra" curricular;
- entendida
nestes termos a parte diversificada será decisiva na construção
da identidade de cada escola, ou seja, pode ser aquilo que identificará
as "vocações" das escolas e as diferenciará
entre si, na busca de organizações curriculares
que efetivamente respondam à heterogeineidade dos alunos
e às necessidades do meio social e econômico;
- sempre
que assim permitirem os recursos humanos e materiais dos estabelecimentos
escolares, os alunos deverão ter a possibilidade de escolher
os estudos, projetos, cursos ou atividades da parte diversificada,
de modo a incentivar a inserção do educando na construção
de seu próprio currículo;
- os
sistemas de ensino e escolas estabelecerão os critérios
para que a diversificação de opções
curriculares por parte dos alunos seja possível pedagogicamente
e sustentável financeiramente;
- se
a parte diversificada deve ter nome específico e carga
identificável no horário escolar é uma questão
a ser resolvida no âmbito de cada sistema e escola de acordo
com sua organização curricular e proposta pedagógica;
- em
qualquer caso, a base nacional comum, objeto destas DCEN, deverá
ocupar, no mínimo, 75% do tempo legalmente estabelecido
como carga horária mínima do ensino médio.
4.7
Formação Geral E Preparação Básica
Para O Trabalho
Sobre
este aspecto é preciso destacar que a letra e o espírito
da lei não identificam a preparação para o
trabalho ou a habilitação profissional com a parte
diversificada do currículo. Em outras palavras, não
existe nenhuma relação biunívoca que faça
sentido, nem pela lei nem pela doutrina curricular que ela adota,
identificando a base nacional comum com a formação
geral do educando e a parte diversificada com a preparação
geral para o trabalho ou, facultativamente, com a habilitação
profissional. Na dinâmica da organização curricular
descrita anteriormente elas podem ser combinadas de muitas e diferentes
maneiras para resultar numa organização de estudos
adequada a uma escola determinada.
A
segunda observação importante diz respeito ao uso,
pelos sistemas e pelas escolas, da possibilidade de preparar
para o exercício de profissões técnicas (Parágrafo
2o. do Artigo 36) ou da faculdade de oferecer habilitação
profissional (Parágrafo 4o. Artigo 36). Esta questão
implica em considerar vários aspectos e deve ser examinada
com cuidado pois toca o princípio de autonomia da escola:
- o
primeiro aspecto refere-se à finalidade de educação
básica do ensino médio que não está
em questão pois a LDB é clara a respeito;
- o
segundo refere-se à duração do ensino médio,
que também não deixa dúvidas quanto aos mínimos
de 2.400 horas distribuídas em 3 anos de 800 horas, distribuídas
em pelo menos 200 dias letivos;
- o
terceiro aspecto a considerar é que a LDB presume uma diferença
entre "preparação geral para o trabalho"
e "habilitação profissional";
Essa
diferença presumida deve ser explicitada. Por opção
doutrinária a lei não dissocia a preparação
geral para o trabalho da formação geral do educando,
e isso vale tanto para a "base nacional comum" como para
a "parte diversificada" do currículo e é
por esta razão que se dá ênfase neste parecer
ao tratamento de todos os conteúdos curriculares no contexto
do trabalho.
Essa
preparação geral para o trabalho abarca portanto os
conteúdos e competências de caráter geral para
a inserção no mundo do trabalho e aqueles que são
relevantes ou indispensáveis para cursar uma habilitação
profissional e exercer uma profissão técnica. No primeiro
caso estariam as noções gerais sobre o papel e valor
do trabalho, os produtos do trabalho, as condições
de produção, entre outras.
No
caso dos estudos que são necessários para o preparo
profissional quer seja em curso formal quer seja no ambiente de
trabalho, estariam por exemplo, conhecimentos de biologia e bio-química
para as áreas profissionais da saúde, a química
para algumas profissões técnicas industriais, a física
para as atividades profissionais ligadas à mecânica
ou eletroeletrônica, as línguas para as habilitações
ligadas a comunicações e serviços, as ciências
humanas e sociais para as áreas de administração,
relações públicas, mercadologia, entre outras.
Dependendo do caso essa vinculação pode ser mais estreita
e específica, como seria, por exemplo, o conhecimento de
história para técnico de turismo ou de redação
de textos e cartas comerciais para alunos que farão secretariado
e contabilidade.
Enquanto
a duração da formação geral, aí
incluída a preparação básica para o
trabalho, é inegociável, a duração da
formação profissional específica será
variável. Um dos fatores que afetará a quantidade
de tempo a ser alocado à formação profissional
será a maior ou menor proximidade desta última com
a preparação básica para o trabalho que o aluno
adquiriu no ensino médio. Quanto maior a proximidade mais
os estudos de formação geral poderão propiciar
a aprendizagem de conhecimentos e competências que são
essenciais para o exercício profissional em uma profissão
ou área ocupacional determinada. Esses estudos podem portanto
ser aproveitados para a obtenção de uma habilitação
profissional em cursos complementares, desenvolvidos concomitante
ou sequencialmente ao ensino médio.
Essa
é a interpretação a ser dada ao parágrafo
único do artigo 5º do Decreto 2208/97: a expressão
caráter profissionalizante, utilizada para
adjetivar as disciplinas cursadas no ensino médio que podem
ser aproveitadas, até o limite de 25%, no currículo
de habilitação profissional, só podem referir-se
às disciplinas de formação básica ou
geral que, ao mesmo tempo, são fundamentais para a formação
profissional e por isso mesmo podem ser aproveitadas em cursos específicos
para obtenção de habilitações específicas.
Não é relevante, para estas DCNEN, indicar se tais
disciplinas seriam cursadas na parte diversificada ou no cumprimento
da base nacional comum, se aceito o pressuposto de que ambas devem
estar organicamente articuladas.
Quando
o mesmo decreto 2208/97 afirma em seu artigo 2o : A
educação profissional será desenvolvida em
articulação com o ensino regular..., e depois,
no já citado artigo 5o reafirma que: A educação
profissional terá organização curricular própria
e independente do ensino médio, podendo ser oferecida de
forma concomitante ou seqüencial a este, estabelece as
regras da articulação, sem que nenhuma das duas modalidades
de educação, a básica, do ensino médio,
e a profissional de nível técnico, abram mão
da especificidade de suas finalidades.
Esse
tipo de articulação entre formação geral
e profissional já foi considerada por vários educadores
dedicados á educação técnica, entre
eles Castro, que aponta ocupações para as quais o
preparo é mais próximo da formação geral.
Este é o caso, entre outros, de algumas ocupações
nas áreas de serviços, como os de escritório,
por exemplo. Outras ocupações, diz esse autor, requerem
uma maior quantidade de conhecimentos e habilidades que não
são de formação geral. Entre estas últimas
estariam as profissões ligadas à produção
industrial, cujo tempo de duração será provavelmente
mais longo por envolverem estudos mais especializados e portanto
mais distantes da educação geral.
Assim,
a articulação entre o ensino médio e a educação
profissional, se dará por uma via de mão dupla e pode
gerar inúmeras formas de preparação básica
para o trabalho no caso do primeiro, e aproveitamento de estudos
no caso do segundo, respeitadas as normas relativas à duração
mínima da educação básica de nível
médio que inclui – repita-se – a formação geral
e a preparação para o trabalho:
- às
escolas de ensino médio cabe contemplar, em sua proposta
pedagógica e de acordo com as características regionais
e de sua clientela, aqueles conhecimentos, competências
e habilidades de formação geral e de preparação
básica para o trabalho que, sendo essenciais para uma habilitação
profissional específica, poderão ter os conteúdos
que lhe deram suporte igualmente aproveitados no respectivo curso
dessa habilitação profissional;
- às
escolas ou programas dedicados à formação
profissional cabe identificar que conhecimentos, competências
e habilidades essenciais para cursar uma habilitação
profissional específica, já foram adquiridos pelo
aluno no ensino médio, e considerar as disciplinas ou estudos
que lhes deram suporte como de caráter profissionalizante
para essa habilitação e portanto passíveis
de serem aproveitados;
- como
a articulação não se dá por sobreposição,
os estudos de formação geral e de preparação
básica para o trabalho que sejam ao mesmo tempo essenciais
para uma habilitação profissional, podem ser incluídos
na duração mínima prevista para o ensino
médio e aproveitados na formação profissional;
- estudos
estritamente profissionalizantes, independentemente de serem feitos
na mesma ou em outra instituição, concomitante ou
posteriormente ao ensino médio, deverão ser realizados
em carga horária adicional às 2.400 mínimas
previstas pela LDB;
- as
várias habilitações profissionais terão
duração diferente para diferentes alunos, dependendo
do perfil do profissional a ser habilitado, dos estudos que cada
um deles esteja realizando ou tenha realizado no ensino médio
e dos critérios de aproveitamento contemplados nas suas
propostas pedagógicas.
As
fronteiras entre estudos de preparação básica
para o trabalho e educação profissional no sentido
restrito nem sempre são fáceis de estabelecer. Além
disso, como já se observou, depende do perfil ocupacional
a maior ou menor afinidade entre as competências exigidas
para o exercício profissional e aquelas de formação
geral.
É
sabido no entanto que em cada habilitação profissional
ou profissão técnica existem conteúdos, competências
e mesmo atitudes, que são próprios e específicos.
Apenas a título de exemplo seria possível mencionar:
o domínio da operação de um tôrno mecânico,
ou do processo de instalação de circuitos elétricos
para os técnicos destas áreas; a operação
de uma agência de viagens para o técnico de turismo;
o uso de aparelhagem de tradução simultânea
para o tradutor; a manipulação de equipamentos para
diagnóstico especializado no caso do técnico de laboratório;
o domínio das técnicas de esterilização
no caso do enfermeiro.
Conhecimentos
e competências específicos tais como os exemplificados
não devem fazer parte da formação geral do
educando e da preparação geral para o trabalho. Caracterizam
uma habilitação profissional ou o preparo para o exercício
de profissão técnica. Considerando que a LDB prioriza
a formação geral quando define os mínimos de
duração do ensino médio e apenas faculta
o oferecimento da habilitação profissional, garantida
a formação geral, esta última só pode
ser oferecida como carga adicional dos mínimos estabelecidos,
podendo essa adição ser em horas diárias, dias
da semana ou períodos letivos.
Caberá
aos sistemas de ensino, às escolas médias e às
profissionais definir e tomar decisões, em cada caso, sobre
quais estudos são de formação geral, aí
incluída a preparação básica para o
trabalho, e quais são de formação profissional
específica. Não há como estabelecer critérios
a priori. Este é mais um aspecto no qual nenhum controle
prévio ou formal substitui o exercício da autonomia
responsável.
Em
resumo:
- os
conteúdos curriculares da base nacional comum e da parte
diversificada devem ser tratados também, embora não
exclusivamente, no contexto do trabalho, como meio de produção
de bens, de serviços e de conhecimentos;
- de
acordo com as necessidades da clientela e as características
da região, contempladas na proposta pedagógica da
escola média, os estudos de formação geral
e preparação básica para o trabalho, tanto
da base nacional comum como da parte diversificada, podem ser
tratados no contexto do trabalho em uma ou mais áreas ocupacionais;
- segundo
esses princípios, a preparação básica
para o trabalho portanto é parte integrante da educação
básica de nível médio e pode incluir, dentro
da duração mínima estabelecida pela LDB,
estudos que são também necessários para cursar
uma habilitação profissional e que, por esta razão,
podem ser aproveitados em cursos ou programas de habilitação
ou formação profissional;
- em
outras palavras, as disciplinas pelas quais se realizam os estudos
acima mencionados no item anterior são aquelas disciplinas
de formação geral ou de preparação
básica para o trabalho necessárias para cursos profissionais
com os quais mantêm afinidade e portanto são de caráter
profissionalizante para esses cursos profissionais, ainda
que cursadas dentro da carga horária mínima prevista
para o ensino médio;
- os
estudos realizados em disciplinas de caráter profissionalizante,
assim entendidas, podem ser aproveitados, até o limite
de 25% da carga horária total, para eventual habilitação
profissional, somando-se aos estudos específicos necessários
para obter a certificação exigida para o exercício
profissional;
- esses
estudos específicos, que propiciam preparo para postos
de trabalho determinados, ou são especializados para o
exercício de profissões técnicas, só
podem ser oferecidos se e quando atendida a formação
geral do educando e mesmo assim facultativamente;
- em
virtude da prioridade da formação geral a eventual
oferta desses estudos específicos de habilitação
profissional, ou de preparo para profissões técnicas,
não poderão ocupar o tempo de duração
mínima do ensino médio previsto pela LDB, sem prejuízo
do eventual aproveitamento de estudos já referido;
- o
sistema ou escola que decida oferecer formação para
uma profissão técnica, usando a faculdade que a
lei outorga, deverá acrescentar aos mínimos previstos,
o número de horas diárias, dias da semana, meses,
semestres, períodos ou anos letivos necessários
para desenvolver os estudos específicos correspondentes.
É
interessante observar que essa diretriz já vem sendo colocada
em prática por sistemas ou escolas de ensino médio
que oferecem também habilitação profissional.
Nesses casos, ainda poucos, os cursos já são mais
longos, seja em termos de horas anuais, distribuídas por
cargas horárias diárias maiores, seja em termos do
número de anos ou semestres letivos, dependendo da conveniência
em fazer os estudos especificamente profissionalizantes em concomitância
ou em seqüência ao ensino médio. Esse fato é
indicativo da adequação desta diretriz e da convicção
que vem ganhando terreno quanto à necessidade de dedicar
mais tempo, esforços e recursos para a finalidade de educação
básica no ensino médio.
Nos
termos deste parecer, portanto, não há dualidade entre
formação geral e preparação básica
para o trabalho. Mas há um clara prioridade de ambas em relação
a estudos específicos que habilitem para uma profissão
técnica ou preparem para postos de trabalho definidos. Tais
estudos devem ser realizados em cursos ou programas complementares,
posteriores ou concomitantes com o ensino médio.
Finalmente
é preciso deixar bem claro que a desvinculação
entre o ensino médio e o ensino técnico introduzida
pela LDB é totalmente coerente com a concepção
de educação básica adotada na lei. Exatamente
porque a base para inserir-se no mercado de trabalho passa a ser
parte integrante da etapa final da educação básica
como um todo, sem dualidades, torna-se possível separar o
ensino técnico. Este passa a assumir mais plenamente sua
identidade e sua missão específicas de oferecer habilitação
profissional, a qual poderá aproveitar os conhecimentos,
competências e habilidades de formação geral
obtidos no ensino médio.
5. A
Organização Curricular Da Base Nacional Comum Do Ensino
Médio
A
construção da Base Nacional Comum passa pela constituição
dos saberes integrados à ciência e à tecnologia,
criados pela inteligência humana. Por mais instituinte e ousado,
o saber terminará por fundar uma tradição,
por criar uma referência. A nossa relação com
o instituído não deve ser, portanto, de querer destruí-lo
ou cristalizá-lo. Sem um olhar sobre o instituído,
criamos lacunas, desfiguramos memórias e identidades, perdemos
vínculo com a nossa história, quebramos os espelhos
que desenham nossas formas. A modernidade, por mais crítica
que tenha sido da tradição, arquitetou-se a partir
de referências e paradigmas seculares. A relação
com o passado deve ser cultivada, desde que se exerça uma
compreensão do tempo como algo dinâmico, mas não
simplesmente linear e seqüencial. A articulação
do instituído com o instituinte possibilita a ampliação
dos saberes, sem retirá-los da sua historicidade e, no caso
do Brasil, de interação entre nossas diversas etnias,
com as raízes africanas, indígenas, européias
e orientais.
A
produção e a constituição do conhecimento,
no processo de aprendizagem, dá muitas vezes a ilusão
de que podemos seguir sozinhos com o saber que acumulamos. A natureza
coletiva do conhecimento termina sendo ocultada ou dissimulada,
negando-se o fazer social. Nada mais significativo e importante,
para a construção da cidadania, do que a compreensão
de que a cultura não existiria sem a socialização
das conquistas humanas. O sujeito anônimo é, na verdade,
o grande artesão dos tecidos da história. Além
disso, a existência dos saberes associados aos conhecimentos
científicos e tecnológicos nos ajuda a caminhar pelos
percursos da história, mas sua existência não
significa que o real é esgotável e transparente.
Por
outro lado, costuma-se reduzir a produção e a constituição
do conhecimento no processo de aprendizagem, à dimensão
de uma razão objetiva, desvalorizando-se outros tipos de
experiências ou mesmo expressões de outras sensibilidades.
Assim,
o modelo que despreza as possibilidades afetivas, lúdicas
e estéticas de entender o mundo tornou-se hegemônico,
submergindo no utilitarismo que transforma tudo em mercadoria. Em
nome da velocidade e do tipo de mercadoria, criaram-se critérios
para eleger valores que devem ser aceitos como indispensáveis
para o desenvolvimento da sociedade. O ponto de encontro tem sido
a acumulação e não a reflexão e a interação,
visando à transformação da vida, para melhor.
O núcleo da aprendizagem terminaria sendo apenas a criação
de rituais de passagem e de hierarquia, contrapondo-se, inclusive,
à concepção abrangente de educação
explicitada nos artigos 205 e 206 da Constituição
Federal.
Assis,
R. CNE. Parecer n._______
5.1
Organização Curricular e Proposta Pedagógica
Se
toda proposição de áreas ou critérios
de agrupamento dos conteúdos curriculares carrega certa dose
de arbítrio, todo projeto ou proposta pedagógica traduz
um esforço para superar esse arbítrio e adaptar um
desenho curricular de base, mandatório e comum, às
características de seus alunos e de seu ambiente sócio-econômico
recorrendo, entre outros recursos, à interdisciplinaridade
e à contextualização como recursos para lograr
esse objetivo.
Será
portanto na proposta pedagógica e na qualidade do protagonismo
docente que a interdisciplinaridade e contextualização
ganharão significado prático pois, por homologia,
deve-se dizer que o conhecimento desses dois conceitos é
necessário mas não suficiente. Eles só ganharão
sentido pleno se forem aplicados para reorganizar a experiência
espontaneamente acumulada por professores e outros profissionais
da educação que trabalham na escola, de modo que os
leve a rever sua prática sobre o que e como ensinar seus
alunos.
A
organização curricular apresentada a seguir pertence
pois ao âmbito do currículo proposto. Contraditório
que possa ser chamar as presentes diretrizes curriculares, obrigatórias
por lei, de currículo proposto, essa é a forma de
reconhecer que o desenvolvimento curricular real será feito
na escola e pela escola. O projeto ou proposta pedagógica
será o plano básico desse desenvolvimento pelo qual
o currículo proposto se transforma em currículo em
ação.
O
currículo ensinado será o trabalho do professor em
sala de aula. Para que ele esteja em sintonia com os demais níveis
– o da proposição e o da ação – é
indispensável que os professores se apropriem, não
só dos princípios legais, políticos, filosóficos
e pedagógicos que fundamentam o currículo proposto,
de âmbito nacional, mas da própria proposta pedagógica
da escola. Outro reconhecimento portanto aqui se aplica: se não
há lei ou norma que possa transformar o currículo
proposto em currículo em ação, não há
controle formal nem proposta pedagógica que tenha impacto
sobre o ensino em sala de aula, se o professor não se apropriar
dessa proposta como seu protagonista mais importante.
Entre
o currículo proposto e o ensino na sala de aula, situam-se
ainda as instâncias normativas e executivas estaduais, legítimas
formuladoras e implementadoras das políticas educacionais
em seus respectivos âmbitos. O edifício do ensino médio
se constrói assim em diferentes níveis nos quais há
que estabelecer prioridades, identificar recursos e estabelecer
consensos sobre o que e como ensinar.
Uma
proposta nacional de organização curricular portanto,
considerando a realidade federativa e diversa do Brasil, há
que ser flexível, expressa em nível de generalidade
capaz de abarcar propostas pedagógicas diversificadas, mas
também com certo grau de precisão capaz de sinalizar
ao país as competências que se quer alcançar
nos alunos do ensino médio, deixando grande margem de flexibilidade
quanto aos conteúdos e métodos de ensino que melhor
potencializem esses resultados. O roteiro de base para tal proposta
será a LDB. Para introduzir a organização curricular
da base nacional é preciso recuperar o caminho percorrido
por este parecer.
Os
princípios axiológicos que devem inspirar o currículo
foram propostos para atender o que a lei demanda quanto a:
- fortalecimento
dos laços de solidariedade e de tolerância recíproca;
- formação
de valores;
- aprimoramento
como pessoa humana;
- formação
ética;
- exercício
da cidadania.
A
interdisciplinaridade e contextualização foram propostas
como princípios pedagógicos estruturadores do currículo
para atender o que a lei estabelece quanto às competências
de:
- vincular
a educação ao mundo do trabalho e à prática
social;
- compreender
os significados;
- ser
capaz de continuar aprendendo;
- preparar-se
para o trabalho e o exercício da cidadania;
- ter
autonomia intelectual e pensamento crítico;
- ter
flexibilidade para adaptar-se a novas condições
de ocupação;
- compreender
os fundamentos e científico e tecnológicos dos processos
produtivos;
- relacionar
a teoria com a prática./li>
A
proposta pedagógica da escola será a aplicação
de ambos, princípios axiológicos e pedagógicos,
no tratamento de conteúdos de ensino que facilitem a constituição
das competências e habilidades valorizadas pela LDB. As áreas
que se seguem resultam do esforço de traduzir essas habilidades
e competências em termos mais próximos do fazer pedagógico,
mas não tão específicos que eliminem o trabalho
de identificação mais precisa e de escolha dos conteúdos
de cada área e das disciplinas às quais eles se referem
em virtude de seu objeto e método de conhecimento. Essa sintonia
fina, que se espera resulte de consensos estabelecidos em instâncias
dos sistemas de ensino cada vez mais próximas da sala de
aula, será o espaço no qual a identidade de cada escola
se revelará como expressão de sua autonomia e como
resposta à diversidade.
5.2
Os Saberes das Áreas Curriculares
Na
área de LINGUAGENS E CÓDIGOS estão destacadas
as competências que dizem respeito à constituição
de significados que serão de grande valia para a aquisição
e formalização de todos os conteúdos curriculares,
para a constituição da identidade e o exercício
da cidadania. As escolas certamente identificarão nesta área
as disciplinas, atividades e conteúdos relacionados às
diferentes formas de expressão das quais a língua
portuguesa é imprescindível. Mas é importante
destacar que o agrupamento das linguagens busca estabelecer correspondência
não apenas entre as formas de comunicação –
das quais as artes, as atividades físicas e a informática
fazem parte inseparável – como evidenciar a importância
de todas as linguagens enquanto constituintes dos conhecimentos
e das identidades dos alunos, de modo a contemplar as possibilidades
artísticas, lúdicas e motoras de conhecer o mundo.
A utilização dos códigos que dão suporte
às linguagens não visa apenas o domínio técnico
mas principalmente a competência de desempenho, o saber usar
as linguagens em diferentes situações ou contextos,
considerando inclusive o interlocutores ou públicos.
Na
área das CIENCIAS DA NATUREZA E MATEMÁTICA incluem-se
as competências relacionadas à apropriação
de conhecimentos da física, da química, da biologia
e suas interações ou desdobramentos como formas indispensáveis
de entender e significar o mundo de modo organizado e racional como
também de participar do encantamento que os mistérios
da natureza exercem sobre o espírito que aprende a ser curioso,
indagar e descobrir. O agrupamento das ciências da natureza
tem ainda o objetivo de contribuir para compreensão do significado
da ciência e da tecnologia na vida humana e social de modo
a gerar protagonismo diante das inúmeras questões
políticas e sociais para cujo entendimento e solução
as ciências da natureza são uma referência relevante.
A presença da matemática nessa área se justifica
pelo que de ciência tem a matemática, pela sua afinidade
com as ciências da natureza, na medida em que é um
dos principais recursos de constituição e expressão
dos conhecimentos destas últimas, e finalmente pela importância
de integrar a matemática com os conhecimentos que lhe são
mais afins. Esta última justificativa é, sem dúvida,
mais pedagógica que epistemológica e pretende retirar
a matemática do isolamento didático em que tradicionalmente
se confina no contexto escolar.
Na
área das CIENCIAS HUMANAS, da mesma forma, destacam-se as
competências relacionadas à apropriação
dos conhecimentos dessas ciências com suas particularidades
metodológicas, nas quais o exercício da indução
é indispensável. Pela constituição do
significados de seus objetos e métodos, o ensino das ciências
humanas e sociais deverá desenvolver a compreensão
do significado da identidade, da sociedade e da cultura, que configuram
os campos de conhecimentos de história, geografia, sociologia,
antropologia, psicologia, direito, entre outros. Nesta área
se incluirão também os estudos de filosofia e sociologia
necessários ao exercício da cidadania, para
cumprimento do que manda a letra da lei. No entanto, é indispensável
lembrar que o espírito da LDB é muito mais generoso
com a constituição da cidadania e não a confina
a nenhuma disciplina específica, como poderia dar a entender
uma interpretação literal da recomendação
do inciso III do parágrafo primeiro do Artigo 36. Neste sentido,
todos os conteúdos curriculares desta área, embora
não exclusivamente dela, deverão contribuir para a
constituição da identidade dos alunos e para o desenvolvimento
de um protagonismo social solidário, responsável e
pautado na igualdade política.
A
presença das TECNOLOGIAS em cada uma das áreas merece
um comentário mais longo. A opção por integrar
os campos ou atividades de aplicação, isto é,
os processos tecnológicos próprios de cada área
de conhecimento resulta da importância que ela adquire na
educação geral – e não mais apenas na profissional
– em especial no nível do ensino médio. Neste a tecnologia
é o tema por excelência que permite contextualizar
os conhecimentos de todas as áreas e disciplinas no mundo
do trabalho.
Como
analisa Menezes, no ensino fundamental a tecnologia comparece como
"alfabetização científico-tecnológica",
compreendida como a familiarização com o manuseio
e com a nomenclatura das tecnologias de uso universalizado, como
por exemplo os cartões magnéticos.
No
ensino médio a presença da tecnologia responde a objetivos
mais ambiciosos. Ela comparece integrada às ciências
da natureza uma vez que uma compreensão contemporânea
do universo físico, da vida planetária e da vida humana
não pode prescindir do entendimento dos instrumentos pelos
quais o ser humano maneja e investiga o mundo natural. Com isso
se dá continuidade à compreensão do significado
da tecnologia enquanto produto, num sentido amplo.
Mas
a tecnologia na educação contemporânea do jovem
deverá ser contemplada também como processo. Em outras
palavras, não se tratará apenas de apreciar ou dar
significado ao uso da tecnologia, mas de conectar os inúmeros
conhecimentos com suas aplicações tecnológicas,
recurso que só pode ser bem explorado em cada nucleação
de conteúdos, e que transcende a área das ciências
da natureza. A este respeito é significativa a observação
de Menezes: A familiarização com as modernas técnicas
de edição, de uso democratizado pelo computador, é
só um exemplo das vivências reais que é preciso
garantir. Ultrapassando assim o "discurso sobre as tecnologias",
de utilidade duvidosa, é preciso identificar nas matemáticas,
nas ciências naturais, nas ciências humanas, na comunicação
e nas artes, os elementos de tecnologia que lhes são essenciais
e desenvolvê-los como conteúdos vivos, como objetivos
da educação e, ao mesmo tempo, meio para tanto.
Dessa
maneira a presença da tecnologia no ensino médio remete
diretamente às atividades relacionadas à aplicação
dos conhecimentos e habilidades constituídas ao longo da
educação básica, dando expressão concreta
à preparação básica para o trabalho
prevista na LDB. Apenas para enriquecer os exemplos citados, é
interessante lembrar do uso de recursos de comunicação
como vídeos e infográficos e todo o mundo da multimídia;
das técnicas de trabalho em equipe; do uso de sistemas de
indicadores sociais e tecnologias de planejamento e gestão.
Para não mencionar a incorporação das tecnologias
e de materiais os mais diferenciados na arquitetura, escultura,
pintura, teatro e outras expressões artísticas. Se
muitas dessas aplicações, como produto, têm
afinidade com as ciências naturais, como processos identificam-se
com as linguagens e as ciências humanas e sociais.
Estas
e muitas outras facetas do múltiplo fenômeno que é
a tecnologia no mundo contemporâneo, constituem campos de
aplicação – portanto de conhecimento e uso de produtos
tecnológicos – ainda inexplorados pelos planos curriculares
e projetos pedagógicos. No entanto, além de sua intensa
presença na vida cotidiana, essas tecnologias são
as que mais se identificam com os setores nos quais a demanda de
recursos humanos tende a crescer. Sem abrir mão do "discurso
sobre as tecnologias" as linguagens e as humanas e sociais
só se enriquecerão se atentarem mais para as aplicações
dos connhecimentos e capacidades que querem constituir nos alunos
do ensino médio.
5.3 Descrição
das Áreas
As
três áreas descritas a seguir devem estar presentes
na base nacional comum dos currículos das escolas de ensino
médio, cujas propostas pedagógicas estabelecerão:
- as
proporções de cada área no conjunto do currículo;
- os
conteúdos a serem incluídos em cada uma delas, tomando
como referência as competências descritas;
- os
conteúdos e competências a serem incluídos
na parte diversificada, os quais poderão ser selecionados
em uma ou mais áreas, reagrupados e organizados de acordo
com critérios que satisfaçam as necessidades da
clientela e da região.
Linguagens,
Códigos e suas Tecnologias, objetivando a constituição
de competências e habilidades que permitam ao educando:
- Compreender
e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens
como meios de: organização cognitiva da realidade
pela constituição de significados, expressão,
comunicação e informação.
- Confrontar
opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens
e suas manifestações específicas.
- Analisar,
interpretar e aplicar os recursos expressivos das linguagens,
relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza,
função, organização, estrutura das
manifestações, de acordo com as condições
de produção e recepção.
- Compreender
e usar a língua portuguesa como língua materna,
geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
- Conhecer
e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) como instrumento
de acesso a informações e a outras culturas e
grupos sociais.
- Entender
os princípios das tecnologias da comunicação
e da informação, associá-las aos conhecimentos
científicos, às linguagens que lhe dão
suporte e aos problemas que se propõem solucionar.
- Entender
a natureza das tecnologias da informação como
integração de diferentes meios de comunicação,
linguagens e códigos bem como a função
integradora que elas estão exercem na sua relação
com as demais tecnologias.
- Entender
o impacto das tecnologias da comunicação e da
informação na sua vida, nos processos de produção,
no desenvolvimento do conhecimento e na vida social.
- Aplicar
as tecnologias da comunicação e da informação
na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
Ciências
da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. objetivando a
constituição de habilidades e competências que
permitam ao educando:
- Compreender
as ciências como construções humanas, entendendo
como elas se desenvolvem por acumulação, continuidade
ou ruptura de paradigmas, relacionando o desenvolvimento científico
com a transformação da sociedade.
- Entender
e aplicar métodos e procedimentos próprios das
ciências naturais.
- Identificar
variáveis relevantes e selecionar os procedimentos necessários
para a produção, análise e interpretação
de resultados de processos ou experimentos científicos
e tecnológicos.
- Apropriar-se
dos conhecimentos da física, da química e da biologia
e aplicar esses conhecimentos para explicar o funcionamento
do mundo natural, planejar, executar e avaliar ações
de intervenção na realidade natural.
- Compreender
o caráter aleatório e não determinístico
dos fenômenos naturais e sociais e utilizar instrumentos
adequados para medidas, determinação de amostras
e cálculo de probabilidades.
- Identificar,
analisar e aplicar conhecimentos sobre valores de variáveis,
representados em gráficos, diagramas ou expressões
algébricas realizando previsão de tendências,
extrapolações e interpolações e
interpretações.
- Analisar
qualitativamente dados quantitativos representados gráfica
ou algebricamente relacionados a contextos socio econômicos,
científicos ou cotidianos.
- Identificar,
representar e utilizar o conhecimento geométrico para
o aperfeiçoamento da leitura, da compreensão e
da ação sobre a realidade.
- Entender
a relação entre o desenvolvimento das ciências
naturais e o desenvolvimento tecnológico e associar as
diferentes tecnologias aos aos problemas que se propuseram e
propõem solucionar.
- Entender
o impacto das tecnologias associadas às ciências
naturais na sua vida pessoal, nos processos de produção,
no desenvolvimento do conhecimento e na vida social.
- Aplicar
as tecnologias associadas às ciências naturais
na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.Compreender conceitos, procedimentos e estratégias
matemáticas e aplicá-las a situações
diversas no contexto das ciências, da tecnologia e das
atividades cotidianas.
Ciências
Humanas e suas Tecnologias, objetivando a constituição
de competências e habilidades que permitam ao educando:
- Compreender
os elementos cognitivos, afetivos, sociais e culturais que constituem
a identidade própria e dos outros.
- Compreender
a sociedade, sua gênese e transformação
e os múltiplos fatores que nelas intervêm, como
produtos da ação humana; a si mesmo como agente
social; e os processos sociais como orientadores da dinâmica
dos diferentes grupos de indivíduos.
- Compreender
o desenvolvimento da sociedade como processo de ocupação
de espaços físicos e as relações
da vida humana com a paisagem, em seus desdobramentos político-sociais,
culturais, econômicos e humanos.
- Compreender
a produção e o papel histórico das instituições
sociais, políticas e econômicas, associando-as
às práticas dos diferentes grupos e atores sociais,
aos princípios que regulam a convivência em sociedade,
aos direitos e deveres da cidadania, à justiça
e à distribuição dos benefícios
econômicos.
- Traduzir
os conhecimentos sobre a pessoa, a sociedade, a economia, as
práticas sociais e culturais em condutas de indagação,
análise, problematização e protagonismo
diante de situações novas, problemas ou questões
da vida pessoal, social, política, econômica e
cultural.
- Entender
os princípios das tecnologias associadas ao conhecimento
do indivíduo, da sociedade e da cultura entre as quais
as de planejamento, organização, gestão,
trabalho de equipe, e associá-las aos problemas que se
propõem resolver.
- Entender
o impacto das tecnologias associadas às ciências
humanas sobre sua vida pessoal, os processos de produção,
o desenvolvimento do conhecimento e a vida social.
- Entender
a importância das tecnologias contemporâneas de
comunicação e informação para o
planejamento, gestão, organização, fortalecimento
do trabalho de equipe.
- Aplicar
as tecnologias das ciências humanas e sociais na escola,
no trabalho e outros contextos relevantes para sua vida.
6.
A Implementação Das Diretrizes Curriculares Nacionais
Para O Ensino Médio: Transição E Ruptura
Em
nosso modo de ver, uma implicação que vale a pena
destacar, derivada desta visão problemática, incerta
e imprevisível das mudanças em educação,
deveria afetar nosso modo de nos posicionarmos frente às
mesmas. Não procede esperar soluções salvadoras
de reformas em grande escala, nem tão pouco extrair conclusões
precipitadas de seus primeiros fracassos, para escudar atitudes
derrotistas e desencantadas, fatalistas ou elusivas. Uma reforma
não é boa ou má pelos problemas e dificuldades
que possam surgir em seu desenvolvimento. Estes não só
são naturais, como necessários. Só encarando
as mudanças educacionais numa perspectiva de conflito, evitaremos
a tentação considerá-las más só
por terem vindo da administração ou de um grupo de
especialistas sizudos, e poderemos esquadrinhá-las pessoal
e coletivamente em seus valores e propósitos, em suas políticas
concretas e decisões, em suas incidencias positivas ou naquelas
outras que não o sejam tanto, e que servirão para
manter uma atitude permanente de crítica e reflexão,
de compromisso e responsabilidade com a tarefa de educar. Esta é,
em última instancia, a postura máis responsável
que nós, profissionais da educação, podemos
e devemos adotar diante das mudanças, sejam as propostas
desde fora, sejam aquelas outras que somos capazes de orquestrar
desde dentro: pensar e refletir, criticar e valorar o que está
sendo e o que deve ser a educação que nos ocupa em
nossos respectivos âmbitos escolares nos tempos em que vivemos
e naqueles que estão por vir, e não iludir as responsabilidades
inescapáveis que nos tocam, a partir de uma profissionalidade
eticamente construída, que há de perseguir a transformação
e melhoria da sociedade por meio da educação.
Escudero,
Bolívar, González, Moreno.
O
real não está nem na chegada nem na saída.
Ele se dispõe prá gente no meio da travessia.
Rosa,
J.G.
A
implementação destas DCNEM será ao mesmo tempo
um processo de ruptura e de transição. Ruptura porque
sinaliza para um ensino médio significativamente diferente
do atual, cuja construção vai requerer mudanças
de concepções, valores e práticas, mas cuja
concepção fundante está na LDB.
No
entanto seria ignorar a natureza das mudanças sociais, entre
elas as educacionais, supor que o novo ensino médio deverá
sugir do vácuo ou da negação radical da experiência
até agora acumulada, com suas qualidades e limitações.
De fato, como já se manifestou esta Câmara a respeito
das diretrizes curriculares para o ensino fundamental, os saberes
e práticas já instituídos constituem referência
dos novos que operam como instituintes num dado momento histórico:
A nossa relação com o instituído não
deve ser, portanto, de querer destruí-lo ou cristalizá-lo.
Sem um olhar sobre o instituído, criamos lacunas, desfiguramos
memórias e identidades, perdemos o vínculo com a nossa
história, quebramos os espelhos que desenham nossas formas.
Dessa
dinâmica entre transição e ruptura vai surgir
a aprendizagem com os acertos e erros do passado e a incorporação
dessa aprendizagem para construir modelos, práticas e alternativas
curriculares novas, mais adequadas à uma população
que pela primeira vez chegará ao ensino médio. Esse
processo que se inicia formalmente, neste final de milênio,
com a homologação e publicação destas
Diretrizes Curriculares Para O Ensino Médio, não tem
data marcada para terminar. Como toda reforma educacional terá
etapas de desequilíbrios seguidas por ajustes e reequilíbrios.
Por
mais que as burocracias e os meios de comunicação
esperem a tradução destas diretrizes curriculares
com lógica e racionalidade cartesianas, de preferência
por meio de uma tabela de dupla entrada que diga exatamente "como
está" e "como fica" o ensino médio
brasileiro, nem mesmo com a ajuda de um martelo a realidade do futuro
próximo caberia num modelo desse tipo. O resultado de uma
reforma educacional tem componentes imprevisíveis que não
permitem dizer com exatidão como vai ficar o ensino médio
no momento em que estas diretrizes estiverem implementadas.
O
produto mais importante de um processo de mudança curricular
não é um novo currículo materializado em papel,
tabelas ou gráficos. O currículo não se traduz
em uma realidade pronta e tangível mas na aprendizagem permanente
de seus agentes que leva a um aperfeiçoamento contínuo
da ação educativa. Nesse sentido uma reforma como
a que aqui se propõe será tanto mais eficaz quanto
mais provocar os sistemas, escolas e professores para a reflexão,
análise, avaliação e revisão de suas
práticas, tendo em vista encontrar respostas cada vez mais
adequadas às necessidades de aprendizagem de nossos alunos.
Em suma, o ensino médio brasileiro vai ser aquilo que nossos
esforços, talentos e circunstâncias forem capazes de
realizar.
Papel
decisivo caberá aos órgãos estaduais formuladores
e executores das políticas de apoio à implementação
dos novos currículos de ensino médio. E aqui é
imprescindível lembrar dois eixos norteadores da Lei 9394/97,
que deverão orientar a ação executiva e normativa
tanto dos sistemas como dos próprios estabelecimentos de
ensino médio:
- o
eixo da flexibilidade, em torno do qual se articulam os processos
de descentralização, desconcentração,
desregulamentação e colaboração entre
os atores, culminando com a autonomia dos estabelecimentos escolares
na definição de sua proposta pedagógica;
- o
eixo da avaliação, em torno do qual se articulam
os processos de monitoramento de resultados e coordenação,
culminando com as ações de compensação
e apoio às escolas e regiões que maiores desequilíbrios
apresentem e de responsabilização pelos resultados
em todos os níveis.
Esses
papéis, complementares na permanente tensão que mantêm
entre si, desenham um novo perfil de gestão educacional a
nível dos sistemas estaduais. O aprendizado desse novo perfil
de gestão será talvez mais importante do que aquele
que as escolas deverão viver para converter suas práticas
pedagógicas, porque a autonomia escolar é, ainda,
mais visão que realidade. Depende portanto do fomento e do
apoio das instancias centrais, executivas e normativas.
Tal
como estão formuladas, a implementação destas
DCNEM, mais do que outras normas nacionais, requerem esse fomento
e apoio às escolas para estimulá-las, fortalecê-las
e qualificá-las a exercer uma autonomia responsável
por seu próprio desenvolvimento curricular e pedagógico.
Em outras palavras, o paradigma de currículo proposto não
resiste ao enrijecimento e à regulamentação
que compõem o estilo dominante de gestão até
o presente.
Do
comportamento das universidades e outras instituições
de ensino superior dependerá também, em larga medida,
o êxito da concretização destas diretrizes curriculares
para o ensino médio, com o qual elas mantêm dois tipos
de articulação importantes: como nível educacional
que receberá os alunos egressos e como responsável
pela formação dos professores.
No primeiro tipo de articulação está colocada
toda a problemática do exame de ingresso no ensino superior
que, até o presente, tem sido a referência da organização
curricular do ensino médio. A continuidade de estudos é
e continuará sendo – com atalhos exigidos pela inserção
precoce no mercado de trabalho, ou de modo mais direto – um percurso
desejado por muitos jovens que concluem a educação
básica. E possível, com diferentes graus de dificuldades,
para uma parte deles.
O
ensino superior está assim convocado a examinar sua missão
e seus procedimentos de seleção na perspectiva de
um ensino médio que deverá ser mais unificado quanto
às competências dos alunos e mais diversificado quanto
aos conhecimentos específicos que darão suporte à
constituição dessas competências. E deverão
fazê-lo com a ética de quem reconhece o poder que as
exigências para ingresso no ensino superior exerce, e continuará
exercendo, sobre a prática curricular e pedagógica
das escolas médias.
A
preparação de professores, pela qual o ensino superior
mantêm articulação decisiva com a educação
básica, foi insistente e reiteradamente apontada como a maior
dificuldade para a implementação destas DCNEM, por
todos os participantes, em todos os encontros mantidos durante a
preparação deste parecer. Maior mesmo que os condicionantes
financeiros. Uma unanimidade de tal ordem possui pêso tão
expressivo que dispensa maiores comentários ou análises.
Um pêso que deve ser transferido às instituições
de ensino superior, para que o considerem quando, no exercício
de sua autonomia, assumirem as responsabilidades com o país
e com a educação básica que considerem procedentes.
É
preciso lembrar no entanto que a deficiência quantitativa
e qualitativa de recursos docentes para o ensino fundamental e médio
há muito se converteu num problema crônico. Essa deficiência
afetará qualquer medida de melhoria ou reforma da educação
que o país se proponha a adotar. Resolver esse problema,
portanto, não é condição para a implementação
destas DCNEM. É questão de sobrevivência educacional,
cuja dimensão vai muito além dos limites deste parecer,
embora se inclua entre os desafios, felizmente não exclusivos,
do Conselho Nacional de Educação. Das instituições
de ensino superior se espera que sejam parceiras no enfrentamento
do desafio e na solução, não apenas na denúncia
do problema.
O
próximo Plano Nacional de Educação será
uma oportunidade para discutir questões como a formação
de professores, entre outras a serem equacionadas durante a implementação
destas DCNEM. Mas a negociação de metas entre atores
políticos para um plano dessa natureza não o torna
necessariamente eficaz. Mais importante será a negociação
que essas metas terão de fazer com próprias as realidades
diversas do país nas quais se incluem os gestores dos sistemas
e os agentes educativos que estão em cada escola.
Para
finalizar, reconhecendo a limitação de inovações
curriculares no nível de sua proposição, mas
também convencida do imperativo de orientações
propositivas num país diverso socialmente e federativo políticamente,
a Câmara de Educação Básica do CNE reitera,
a propósito destas DCNEM, aquilo que já afirmou: As
medidas legais representam, no entanto, passos preparatórios
para as mudanças reais na educação brasileira,
em sintonia com as novas demandas de uma economia aberta e de uma
sociedade democrática. Estará nas mãos das
instituições escolares e respectivas comunidades a
construção coletiva e permanente de propostas e práticas
pedagógicas inovadoras que possam dar resposta às
novas demandas.
II. VOTO
DA RELATORA
Em
vista do exposto a relatoría propõe que se aprove
o Projeto de Resolução em anexo.
III. DECISÃO
DA CÂMARA
A
Câmara de Educação Básica acompanha o
Parecer da Relatoría
Sala
das Sessões, 02 de junho de 1998
Conselheiro
Ulysses de Oliveira Panisset – Presidente
Conselheiro
Francisco Aparecido Cordão – Vice Presidente
Conselheira
Guiomar Namo de Mello – Relatora
Conselheiro
Antenor Manoel Naspolini
Conselheiro
Carlos Roberto Jamil Cury
Conselheira
Edla de Araújo Lira Soares
Conselheiro
Fábio Luiz Marinho Aidar
Conselheira
Iara Glória Areias Prado
Conselheira
Iara Silvia Lucas Wortmann
Conselheiro
João Antônio Cabral de Monlevade
Conselheiro
Kuno Paulo Rhoden
Conselheira
Regina Alcântara de Assis
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