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Antonio Oliveira Santos - Empresário
Existem no Brasil, dois ordenamentos
básicos em matéria de educação: a Constituição Federal de 1988, capítulo III, e a
Lei de Diretrizes e Bases (LDB), nº 9394, de 1996. É com fulcro nesses dois alicerces
que se organiza o sistema nacional de educação. A rigor, não há o que criticar em
nenhum desses dois diplomas. Eles foram escritos com a sobriedade adequada e o equilíbrio
necessário, para alijar qualquer influência política e ideológica. E assim vêm
funcionando, produzindo resultados reconhecidamente positivos.
Entretanto, pode-se dizer que, em
grande número de casos, persistem dois defeitos graves no sistema: há falta quantitativa
de escolas e falta de qualidade no ensino. O ensino infantil e fundamental é
responsabilidade primária dos municípios, assim como o ensino fundamental e médio deve
caber, também, aos estados, devendo ser gratuito, nas escolas públicas. Mas como,
sabidamente, as escolas públicas são insuficientes, a Constituição teve a suprema
sabedoria de estipular que o ensino é livre nas escolas particulares, ou seja, assegura
inteira liberdade de iniciativa para quem quiser, dentro dos padrões regulamentares,
criar e administrar, com total independência e autonomia, escolas particulares, não
gratuitas.
O mesmo acontece em nível das
universidades. As Instituições de Ensino Superior, públicas, em mãos do governo
federal ou dos estados, não são capazes de abrigar a massa de alunos que procura acesso
ao ensino superior. Essas IES públicas se tornaram tão onerosas, com tantos privilégios
corporativos, que ficaram paradas no tempo, deixando de fora milhões de pretendentes
jovens. Então, como não podia ser outra a resposta, surgiram as IES privadas.
Atualmente, existem 3,9 milhões de estudantes matriculados no ensino superior, 3 milhões
nas instituições privadas (universidades, centros universitários e faculdades) e 900
mil nas IES públicas. Nas IES privadas os cursos são pagos, afora o grande número de
bolsas gratuitas. Nas IES públicas todo o ensino é gratuito, tanto para o estudante de
baixa renda como para o filho do milionário.
No ensino superior, principalmente
por motivos financeiros e por incapacidade ideológica na estratégia governamental, o
país não tem saído do lugar e assiste, passivamente, o desmonte da Universidade
pública, onde, repito, existem as maiores barbaridades em torno de um empedernido
corporativismo, da falta de recursos ou atraso em seus recebimentos.
Não havendo universidades
públicas, de um lado, e de outro, a massa crescente de estudantes procurando um diploma
ou uma qualificação melhor para o emprego, expandiu-se a universidade privada,
principalmente nos governos militares.
Ao mesmo tempo, explodiram as
escolas de primeiro e segundo graus (fundamental e média), atualmente com cerca de 38
milhões de alunos. Temos, hoje, matriculados no ensino fundamental, 97% dos jovens de 7 a
14 anos, uma vitória espetacular, que só não é completa porque o Estado não tem
recursos adequados para equipá-las e modernizá-las, assim como não tem professores
qualificados, principalmente porque os baixos salários não atraem profissionais
competentes.
Então, surge um anteprojeto
''salvador da pátria'', uma proposta miraculosa de Reforma do Ensino Superior, cujo
objetivo básico é estatizar o ensino, reduzir e descaracterizar as IES privadas,
submetendo-as à intervenção do poder público, ao corporativismo dos professores e
alunos, dos sindicatos e da comunidade externa, ao mesmo tempo em que se propõe a
expandir as universidades públicas federais em 40%, criando cerca de mais 10, em sete
anos, período em que se pretende elevar o número de estudantes universitários de 3,9
milhões para 9 milhões.
Recursos? Não se sabe de onde
virão. Pois os governos - federal e estaduais - não têm recursos nem para a merenda
escolar. Professores? Também não os há e nem tampouco se pensa em criar instituições
especiais para sua formação. As razões são as mesmas: o Estado não tem recursos, como
também não tem competência para desenvolver um programa de dimensões nacionais, nessa
área.
Diante de tantas dificuldades, o
Ministério da Educação decidiu dar prioridade ao Ensino Superior, começando por tentar
desmontar e estatizar as IES privadas. Para elas, o MEC se propõe a criar um Conselho
Comunitário Social, com total poder administrativo e operacional, no qual 10% dos
representantes seriam indicados pelos professores, 20% (isso mesmo) pelas mantenedoras,
isto é, os donos das instituições, e 70% (?!) indicados pela comunidade externa.
O sistema brasileiro de ensino não
é o melhor do mundo, e precisa, urgente, de escolas de professores para o ensino básico.
Mas, decididamente, não precisa de uma revolução, nem de uma reforma soviética do
ensino superior. Portanto, para não perder mais tempo, que deveria ser alocado a outras
prioridades, melhor será arquivar o anteprojeto que está sendo elaborado pelo ministro
da Educação. Simplesmente porque é uma reforma equivocada, dispensável e
indefensável.
Antonio Oliveira Santos é
presidente da Confederação Nacional do Comércio e ex-professor titular de Física da
Universidade Federal do Espírito Santo .
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