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Renata Cabrera
Desde que surgiram as experiências mais expressivas de
organização curricular por ciclos, na década de 90, elas têm sido alvo de críticas e
debates por parte dos mais diversos setores da sociedade.
De modo geral, as críticas convergem no sentido da
"desresponsabilização" com a qualidade do ensino, ao permitir a progressão
continuada dos alunos ao longo da sua escolaridade.
Nos últimos dias, a discussão voltou à tona porque o
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) divulgou um relatório
parcial de uma pesquisa que vem desenvolvendo com os pais de alunos das redes públicas de
ensino. A partir da divulgação dessa pesquisa, que tem por objetivo retratar a escola
pública na opinião dos pais, vários jornais apontam a queixa com a qualidade do ensino
e a sua relação com a escola organizada por ciclos.
Isso é um fato que requer certo cuidado. Não podemos
atribuir as mazelas da educação básica aos ciclos, principalmente, considerando que
grande parte sistema de ensino público brasileiro ainda vive sob a égide da
organização curricular por série. Em Mato Grosso, de acordo com dados da SEDUC, apenas
12,47% das escolas estão totalmente cicladas.
Vários são os fatores que interferem na qualidade do
ensino, como, por exemplo, professores bem qualificados e preparados, estrutura física,
material didático, capital cultural, entre outros. Isso serve para ilustrar o quão
complexa é a questão. Responsabilizar a escola ciclada por um ensino que não responde
aos anseios de uma educação de qualidade é ser reducionista.
Uma das maiores queixas que se tem quanto à escola ciclada
é a de que os alunos vão progredindo ao longo da sua escolaridade sem se ter a garantia
dos domínios das competências e habilidades para as etapas do ensino que estão
cursando. Isso também foi evidenciado na pesquisa exploratória que o INEP realizou. A
pesquisa retrata descontentamento dos pais no que se refere aos métodos de ensino e ao
sistema de promoção adotado pelas escolas. Mostra ainda, que, na visão dos pais,
organização curricular como a dos ciclos implica em menor empenho, tanto dos professores
como dos alunos. Estes, por sua vez, têm seu desempenho comprometido, uma vez que
afastado o fantasma da reprovação sentem-se menos exigidos em seus estudos.
Penso que o que hoje se constitui em uma das maiores
críticas à escola ciclada é, ao meu ver, um dos maiores argumentos ao seu favor, ou
seja, se alguns alunos têm chegado à determinada etapa da sua escolarização sem terem
sequer o domínio da língua portuguesa, como noticiou recentemente a Revista Isto É,
isso deve ser enfrentado e corrigido sim, mas a novidade é que esse aluno chegou a essa
determinada escolaridade. Antes, no seriado, não seria possível, pois estaria evadido do
sistema escolar através de sucessivas reprovações.
Ao contrário do simples ataque ao fato desse aluno ter
chegado à determinada etapa do ensino sem o domínio dos saberes, a questão que deve ser
posta é de como fazer para que esse aluno que agora permanece mais tempo na escola
consiga também dominar todas as competências e habilidades necessárias para viver como
cidadão crítico e participativo da sociedade da qual faz parte.
Em linhas gerais, como pesquisadora dessa temática, posso
afirmar que os pressupostos teórico-filosóficos que norteiam a proposta da escola
ciclada se concentram no respeito aos ritmos diferenciados e na flexibilização do tempo
escolar, portanto, estão apontando para a inclusão escolar. Se, o modelo de ensino em
ciclos que vêm sendo vivenciado em nossas escolas não reflete tais pressupostos, é
preciso que através de estudos, pesquisas e com muita discussão com toda a comunidade
escolar, possamos chegar a um modelo que realmente atenda aos anseios de uma educação
inclusiva e de qualidade. Ao contrário, podemos correr o risco de jogar o bebê junto com
a água do banho. E a volta ao seriado significa apostar na educação como claro
instrumento de seleção social.
Sobre Renata Cabrera:
Formação: Bióloga formada pela UFMT e mestre em
educação pela mesma universidade.
Histórico: Pesquisadora do Grupo de políticas
educacionais de MT-GPPE-MT. Atualmente, pesquisa a organização curricular por ciclos no
estado de Mato Grosso.
Revista Gestão Universitária
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