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Ao fazer circular nos meios acadêmicos e em boa parte da
imprensa a versão preliminar da reforma do ensino superior, o Ministério da Educação
semeou vento e começa a receber os primeiros respingos da tempestade que ameaça desabar
sobre todo o governo. Isso porque, a pretexto de modernizar o setor, os técnicos do MEC
produziram um anteprojeto de lei absolutamente retrógrado que deixou a comunidade em
assombro.
Mas, afinal, o que propõem? Para que se tenha uma idéia
mais exata da extensão dos danos embutidos nas mudanças sugeridas, vamos nos ater
inicialmente ao item que se refere à administração das universidades particulares.
O projeto simplesmente sufoca as instituições privadas,
submetendo-as ao "controle da sociedade", o que, na prática, significa
expropriação na medida em que retira de seus proprietários o poder de decisão. A
propósito, uma das primeiras vozes a denunciar a manobra foi a do ex-ministro da
Educação Paulo Renato de Souza, que disse peremptoriamente: "Isso significa uma
expropriação, pois tira dos empresários a condução de seus próprios negócios".
O fato é que a proposta do MEC vem obtendo a reprovação
unânime e está sob intenso fogo cruzado da crítica. "A peça constitui talvez o
mais frontal ataque à sociedade aberta já tentado por um órgão de governo no
Brasil", disse com dureza a insuspeita revista "Veja", enfatizando que,
além de agressões ao bom senso, ao mérito acadêmico, à economia de mercado e à ordem
jurídica, o documento expressa solene desprezo pela busca do conhecimento e da
propriedade privada. É bem verdade que os chamados radicais do PT viveram anos de
recolhimento. Mas não precisavam ter parado no tempo.
Para ser implantada, tal como foi concebida, a reforma
exigiria a ação forte de um governo plenipotenciário como a antiga União Soviética,
agindo ao arrepio do bom senso e da Constituição. Convenhamos, a defesa de práticas
totalitárias é hoje tão anacrônica quanto o culto ao capitalismo americano. O mundo
está à procura do meio-termo. O nacionalismo embolorado é tão inadequado quanto o
liberalismo inconseqüente. Causa espanto tamanho retrocesso.
Se desejarem mesmo embarcar no trem da história, e entrar
em sintonia com as mudanças bem-sucedidas orientadas pelo governo em outras áreas,
convém que os burocratas do MEC evoluam. Com os pés fincados nos anos do totalitarismo
soviético, eles precisam começar a pensar com a cabeça do século 21.
A abertura do mercado nacional e a chegada de tempos
melhores para a economia aguçaram no segmento privado educacional o desejo de competir
com mais qualidade e confiabilidade, estimulando largos investimentos em tecnologia. É
preciso dizer, em alto e bom som, que falta a esses senhores o discernimento necessário,
ou até mesmo a conscientização de que a educação e a cultura de um povo são
condições básicas, e que o sucesso de uma economia interligada e mundializada depende
da participação e da qualificação do povo. Sem passar por uma revolução educacional,
o Brasil não resolverá seus problemas.
O último censo revelou uma estatística aterradora: menos
de 2% da população freqüenta o ensino superior no Brasil. O ensino público se atola em
suas contradições, desperdiçando verbas em excesso de funcionalismo, enquanto as
grandes órfãs do ensino brasileiro, a educação infantil, a educação fundamental e
média, continuam à míngua. Essa é a incoerência básica da Nação que, em matéria
de ensino, investe no que devia ser deixado à escola particular e deixa de investir
naquilo que é de sua quase exclusiva competência. Isso demonstra, mais uma vez, que a
tese da privatização do ensino superior se sustenta em parâmetros de eficiência.
A Notícia, 14/02/2005 SC
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