Pela publicação de fórmulas no ENEM

Por Pedro Flexa Ribeiro - Coordenador do Colégio de Assessores Pedagógicos da FENEP (CAPEP) e diretor da Federação Nacional das Escolas Particulares (FENEP)

As mudanças anunciadas no ENEM alinham o processo seletivo com o propósito de diversificação do currículo do Ensino Médio. Como as expectativas estabelecidas pelo processo de ingresso pautam muitas das práticas escolares e das exigências que recaem sobre os alunos, depois de tantas décadas de currículo unitário, essa é uma perspectiva promissora para aqueles que farão o exame a partir de 2024.

Até lá, as próximas edições do exame serão as duas últimas que ainda ocorrerão nos atuais moldes. Os dois anos de pandemia vão sendo superados. É notório que as perdas sofridas vão além das defasagens acadêmicas e envolvem mesmo um impacto na saúde mental de alunos e de suas famílias. Dadas as desigualdades, tudo isso afeta, de forma mais aguda, justo as camadas mais vulneráveis.

A superação dessa situação demandará tempo, investimento e cuidado no ajuste de planejamentos. Com a retomada das aulas presenciais, cada escola terá melhores condições para aplicar as avaliações diagnósticas que lhes permitirão mapear defasagens. A partir de diagnósticos mais precisos, cada uma poderá discernir e implementar ajustes e intervenções que lhes pareçam adequados. Mas outras providências estão fora do seu alcance e ficam a depender da avaliação externa.

No curto prazo, um passo significativo seria dado na medida em que os cadernos das provas de Ciências da Natureza e de Matemática passassem a publicar a relação das fórmulas referentes a essas Áreas de Conhecimento. A atual prática do concurso ainda exige do candidato que ele não apenas identifique a ocasião de aplicar alguma fórmula como que tenha cada uma delas retida em sua memória. Tal exigência desde muito tempo causa estranhamento e perplexidade entre educadores. Um critério dessa natureza em um processo seletivo acarreta consequências e reflete-se nas metodologias e práticas de ensino das salas de aula de todo o país.

Ainda que anacrônica, essa exigência do concurso tem induzido professores de Física, Química e Matemática a prepararem os seus alunos antecipando essa exigência para o decorrer do Ensino Médio. Com isso, desde a primeira série do Ensino Médio, o estudante brasileiro vem sendo convocado a decorar uma considerável quantidade de fórmulas.

Hoje é universal o consenso entre educadores de diversos países acerca de conceitos como o de Habilidades e Competências, perspectivas que também no Brasil já foram contempladas em todo o referencial teórico que fundamenta o ensino e já incorporadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Como tem sido dito, as escolas de todo o país estão recebendo de volta alunos que acabam de vivenciar um período oficialmente declarado como de “calamidade pública”. As perdas e as defasagens distribuem-se de forma desigual dependendo de realidades sócio-econômicas. Tanto nas escolas oficiais quanto nas privadas, professores estarão empenhados em discernir que adaptações podem ser feitas para acolher e compensar as fragilidades, buscando proporcionar aos seus alunos uma escolaridade adequada e de qualidade. Na Educação Básica, as diferenças decorrem também das faixas etárias. A Educação Infantil e as séries iniciais têm diante de si mais tempo para organizar e providenciar os ajustes e compensações necessários.

Mas, em tratando-se da terminalidade do Ensino Médio, o tempo é mais escasso e implacável. A perspectiva de um concurso externo convoca o preparo de todos os candidatos, estudantes. Um dos maiores desafios do Ensino Médio é o de proporcionar uma trajetória escolar nas quais os alunos reconheçam sentido e relevância. No momento em que professores e escolas de todo o país se empenham em discernir que ajustes cabem ser feitos em seus planejamentos e em suas práticas, seria muito oportuno se, por seu lado, a avaliação externa pudesse contribuir para que esses alunos tivessem uma experiência pertinente.

Em meio a tantas perdas e tantos desafios e diante de perspectivas educacionais mais atuais que rejeitam ou que condenam a necessidade da “decoreba”, seria sábio se os cadernos das provas passassem a trazer impresso o repertório de fórmulas.

O advento da pandemia torna inevitável que as próximas edições do concurso se passem em contexto no qual a desigualdade de condições entre candidatos será ainda mais acentuada e injusta. Na atual circunstância, uma notícia como essa seria certamente muito bem-vinda por professores, escolas e jovens de todo o país. Medidas nesse sentido seriam inequívoca demonstração de sensibilidade e de cuidado por parte dos responsáveis pelo processo de ingresso.

Tendo em vista os efeitos práticos no planejamento das escolas, o quanto antes uma mudança nessa linha viesse a ser anunciada, maior e melhor seria o seu impacto.

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