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A serpente e o vaga-lume

Por Osvino Toillier - Mestre em Educação e Presidente em Exercício do SINEPE/RS

Conta a lenda que a serpente começou a perseguir um vaga-lume. Este fugia rápido, com medo da feroz predadora, mas a cobra nem pensava em desistir.

Fugiu um dia, e ela não desistia; dois dias e nada… No terceiro dia, já sem forças, o vaga-lume disse à cobra:

“Posso lhe fazer três perguntas”?

“Não costumo dar este precedente para ninguém, mas já que vou devorá-lo, pode perguntar”, disse a serpente.

“Faço parte de sua cadeia alimentar”?

“Não”, respondeu a cobra.

“Fiz-lhe algum mal”?

“Não”, retrucou a serpente.

“Então, por que quer acabar comigo?”, perguntou o desesperado vaga-lume.

“Porque não suporto o seu brilho”.

Que beleza não poderia ser a vida sem a dimensão da inveja, que desde tenra idade atormenta as pessoas, normalmente abastecida pelos adultos, porque precisam de que alguém seja melhor do que o outro.

É muito difícil, mas muito difícil mesmo, não se tornar refém da inveja, que mina o espírito do ser humano, abalando amizades e comprometendo, quando não destruindo, o espírito de equipe.

Vamos nos abastecer na luz do Evangelho, conforme Romanos 7.18-19, onde encontramos passagem significativa a respeito: “O querer o bem está mim, mas não sou capaz de fazê-lo. Não faço o bem que quero e sim o mal que não quero”.

Esta constatação poderia nos ajudar na percepção de que, apenas pela nossa condição humana, não temos domínio sobre nossos sentimentos, e nos tornamos reféns de nós mesmos. Somente o reconhecimento de que a ação do espírito divino nos poderá capacitar a não termos inveja de quem brilha ao nosso lado, nos poderá livrar deste mal terrível. E pior, se brilhar intensamente.

É por esta razão que muitas estrelas incipientes têm a luz cortada e são alijadas, porque representam alguma ameaça.

Nosso querido poeta Mário Quintana nos legou esta frase antológica: “Os jardins não murcham por falta de chuva, mas pela indiferença do que passam”.

Por que temos de ganhar dos outros sempre? Por que não podemos promover o colega, de forma honesta, reconhecendo-lhe publicamente o trabalho bem feito e seus talentos?

Já se disse que tem gente que apagaria o sol, para que não pudesse brilhar para os outros. A inveja é um mal terrível, que precisa ser banido da vida das crianças, sob pena de criar jovens e adultos que farão sofrer muitas pessoas e, elas mesmas, serão muito infelizes.

Procura conviver, no dizer Petersen, entre pessoas que te ensinam a caminhar entre as estrelas; porém, quando encontrares a luz, não a negues aos que ficaram nas trevas.

Esta, amigos, é a grande lição da vida: inspirar-se no exemplo dos outros, superá-los até, mas jamais enfeitar-se com penas alheias.

Já escrevi noutra ocasião que a mais bela moldura da competência é a humildade. Isto é o exemplo mais educativo que se possa deixar, mas também tanto quanto belo é difícil de ser praticado, até porque não falta quem queira se aproveitar do brilho alheio e adonar-se de nossa estrela…

É a nossa luz e não as nossas trevas que mais nos  apavoram, disse alguém um dia. E isto é profundamente verdadeiro, mas também não é condenação definitiva. Basta aprender a conviver com o brilho do vaga-lume. Afinal, ele encanta – mesmo que seja efêmero – a escuridão da noite de todos nós.

Por Osvino Toillier – Mestre em Educação e Presidente em Exercício do SINEPE/RS

 

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