Um País é como uma orquestra!

Em meados de maio de 2019 tive a oportunidade de visitar algumas escolas e universidades israelenses, onde pude conhecer um pouco do sistema educacional daquele que é considerado o país das startups. A conclusão que cheguei é de que apesar de ter pouco mais de 70 anos de independência, Israel têm muito a nos ensinar no campo educacional, dentre outras áreas.

Voltando para a realidade brasileira, a verdade é que nos deparamos com uma realidade bastante diferente, principalmente na área de educação.  Recentemente, em uma de suas queixas contra a velha política brasileira, o presidente Jair Bolsonaro disse que o Brasil é um “País ingovernável sem conchavos políticos”. A conclusão do presidente, que certamente já foi alcançada por governantes anteriores, me fez refletir e tentar compreender o que nos leva a esta condição.

Com isso, recorri a outra citação, desta vez de autoria do Frei Arturo Vasaturo: “Um país é como uma orquestra, cada um têm que tocar bem seu instrumento, o estado deve ser o maestro. Mas se não tocamos bem nosso instrumento, precisamos treinar mais, ou não podemos fazer parte da orquestra”.

Então vejamos: Se olharmos para o país como uma orquestra, todos nós brasileiros em nossas atividades e responsabilidades diárias, tocamos algum instrumento. E se o fazemos, devemos sempre procurar fazê-lo cada vez melhor para quem? Para o chefe, se tiver alguém olhando? Para o fiscal?

Se formos refletir profundamente, todos deixamos a desejar em algum aspecto nas nossas atividades e será que buscamos nos aprimorar diariamente naquilo que fazemos? Até que ponto não colocamos a culpa em alguém pelas coisas que não saíram como planejado?

Isso vale também para as nossas instituições, imprensa, escolas, lideranças empresariais e políticas, dentre outras. Precisamos tocar bem nossos instrumentos, fazer bem feito o que temos que fazer, como país, filhos, educadores, empresários, profissionais liberais, comerciantes, políticos, enfim, cada um tem o seu papel.

Se um país precisa funcionar como uma orquestra, precisamos de todos os músicos, independente do instrumento que toque, mas precisamos cada vez mais de grandes músicos, especialistas em seus instrumentos, músicos que busquem se aprimorar, que estejam conectados com as inovações tecnológicas, cada vez mais presentes em nossas vidas. Devemos fazer isso, principalmente porque queremos que a música tocada por todos não seja ruim, justamente porque não faço direito o meu trabalho. Todos devem concordar, qualquer instrumento mal tocado acabará prejudicando a qualidade do som e harmonia da orquestra como um todo.

Por outro lado, em um país como o Brasil, que escolhe democraticamente os seus maestros, os nossos governantes eleitos são ou devem agir como maestros, e nesse caso, precisamos entender o que cabe ao maestro.

Cabe ao maestro orientar e definir qual musica será tocada, a distribuição dos instrumentos que serão executados, o momento que cada componente da banda dará sua contribuição, qual tom deverá ser entoado para que a melodia seja a melhor possível, ou seja, cabe a ele gerenciar o trabalho da orquestra.

Por outro lado, quero crer que não cabe ao maestro definir quais instrumentos participarão do concerto, uma vez que essa pluralidade é a essência de uma orquestra. Ou seja, quando ele assumiu a orquestra, os instrumentistas já existiam, cada um exercendo o seu papel. Sendo assim, somente restará ao maestro orientá-los para que a apresentação seja a melhor possível, e não excluí-los da banda.

Com essa metáfora, podemos entender claramente o momento atual que vivemos no Brasil. De um lado temos os músicos, que devem estar dispostos a tocar o melhor possível os seus instrumentos, podendo inclusive fazer os ajustes necessários para o melhor funcionamento do equipamento. Do outro, temos o maestro que precisa rapidamente definir qual música será tocada, comunicando a todos seus objetivos de forma clara e concisa.

É também esperado que ele compreenda que não foi eleito dono da orquestra, mas sim gerenciador da mesma. Assim, precisa dar o seu melhor e acolher e gerenciar todos os instrumentos da orquestra, respeitando a especialidade e a individualidade de cada músico e de cada instrumento.

Neste momento, temos muito o que aprender e treinar, para que nossa orquestra chamada Brasil, alcance realmente um som afinado e possa ser devidamente aplaudida pela música executada.

Ademar Batista Pereira é Presidente da FENEP - Federação Nacional das Escolas Particulares

Para o Estadão.

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