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Perfil do aluno pós-pandemia é debatido por especialistas em painel

Assunto foi discutido no VII Congresso de Educação da FENEP com a participação de psicólogos e educadores

Desde o retorno às aulas presenciais, os educadores têm percebido uma mudança no comportamento de muitos alunos. Desinteresse pelos estudos, desânimo e depressão são relatos frequentes no ambiente escolar. O que a escola e a família podem fazer diante desse cenário? O assunto foi discutido no painel “Que aluno é esse pós-pandemia?”, no VII Congresso de Educação da FENEP, no dia 02 de julho. Participaram do debate o psicólogo cognitivo-comportamental e sócio fundador da Argos Clínica Psi, Luciano Melo, o psicólogo clínico e idealizador do Programa Oxigênio de autoconhecimento nas escolas, Sabino Dourado e a assessora pedagógica e de legislação educacional do SINEPE/RS, Naime Pigatto. A mediação do painel foi feita pela vice-diretora administrativa da FENEP e diretora administrativa do Colégio Santa Dorotéia (MG), Zuleica Reis Ávila.

Clique aqui para assistir ao painel na íntegra.

Em sua fala, o psicólogo Luciano Melo trouxe sugestões de estratégias que podem ser utilizadas pelas famílias para auxiliar os estudantes, neste momento. O primeiro ponto, segundo ele, é abandonar o preconceito com relação à saúde mental. “Terapia precisa ser desassociada à ideia de que é ‘para quem não bate bem da cabeça’. Ela tem como objetivo o autoconhecimento e a autoconstrução.”, alertou. O especialista chamou a atenção para o fato de que a forma como nos sentimos e pensamos tem relação com a nossa saúde mental. “A forma como pensamos interfere de maneira decisiva em como nos sentimos e nos comportamos. Se olharmos para uma realidade baseada na maximização do negativo fatalmente nosso emocional será afetado”, salientou. Para ele, é fundamental que os pais assumam os problemas e as responsabilidades para si, não transferindo aos filhos. “Temos visto muitos adolescentes envolvidos e preocupados com os problemas dos pais, é o que chamamos de ‘pais invertidos’. Não podemos esquecer que nós somos os adultos da situação”, lembrou.

O especialista defendeu, ainda, que se invista na parceria com a escola e no fortalecimento dos vínculos, em especial na infância. “Precisamos adotar uma postura de empatia e acolhimento, valorizar o que a criança e o adolescente têm a dizer”, defendeu Melo. Ele entende que também é preciso desenvolver atitudes voltadas à espiritualidade. “Não tem relação com religião, necessariamente. Estamos falando de um vínculo com um ser transcendente”.

O psicólogo Sabino Dourado destacou três características que tem percebido no comportamento dos alunos, nesse retorno ao presencial. O primeiro, segundo ele, é a desesperança, que vem com as incertezas sobre o futuro. “Muitos não querem se tornar adultos porque vê que os adultos estão com problemas. Trabalhamos com eles a ideia de que adultos difíceis são adultos que não trabalham o autoconhecimento”. Outra característica comum entre os jovens, segundo Dourado, são os sentimentos desgovernados. “Percebemos melancolia, e ao mesmo tempo, excesso de nervosismo”. Ele também identifica desinteresse relacional, com afastamento do convívio social e dificuldade de falar sobre si.

Como solução para enfrentar esse quadro, Dourado sugere que se invista no autoconhecimento. “Diante desse cenário de tantos problemas psicológicos que estamos vivendo, cada vez mais cedo essa geração vai se despertar para o autoconhecimento e entender a importância de mergulhar em si”, acredita. Ele também defende que é importante que as famílias busquem ajuda com a terapia.

Em sua fala, a pedagoga Naime Pigatto lembrou que a escola é um reflexo da sociedade. “Assim como nós, esse aluno também está passando por uma reconexão, saindo do isolamento para o espaço físico”, salientou. Ela relatou que além de questões comportamentais, as escolas têm percebido crianças com dificuldades motoras e até mesmo na escrita. “Para algumas, o caderno é um objeto estranho. Tudo isso é reflexo de um uso excessivo de telas”, alertou. Para a educadora, é fundamental que a escola auxilie esse estudante, mas não deixe de cobrar os limites e as regras. “O que não mudou é a condição desse aluno como sujeito em desenvolvimento”.

Entre as sugestões da especialista, é que, diante desses novos desafios, a escola reveja seu regimento, sua proposta pedagógica e seu plano curricular. “Se precisamos trabalhar com metodologias ativas, isso precisa constar no nosso documento. Assim como o regimento escolar deve ter muito claro as questões envolvendo as normas de convivência”, complementou. Ela defendeu que, além da preocupação com o desenvolvimento socioemocional, a escola foque também na formação intelectual dessa geração. “A escola é um capital cognitivo cultural, é um espaço do coletivo que acolhe os mais diferentes perfis. Mas, deve ser um coletivo com uma missão, uma visão, e uma filosofia a ser seguida, e também com limites”, ponderou. Para ela, os alunos precisam ter em mente que aprender envolve estudar, e estudar requer tempo, dedicação e paciência.

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