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Pesquisa mostra impacto da pandemia na aprendizagem dos alunos

Mesmo com o esforço das escolas particulares em oferecer o ensino remoto, nos dois últimos anos, crianças e adolescentes sentiram o impacto da pandemia na aprendizagem. No Rio Grande do Sul, uma pesquisa de mestrado realizada na PUCRS pela neuropsicóloga Bruna Scheffer, sob orientação da professora Rochele Paz Fonseca, traz alguns indicativos das lacunas deixadas pelo isolamento social.

A pesquisa comparou o desempenho de 50 crianças de oito a 12 anos em tarefas neuropsicológicas com o resultado nos mesmos testes em 100 crianças da mesma faixa etária até 2019. Foram avaliadas funções cerebrais e cognitivas em atividades como escrita de palavras e compreensão de texto ou compreensão leitora. Os alunos avaliados em 2021 e no início de 2022 mostraram-se até duas vezes mais lentos para desenvolver as atividades e tiveram prejuízo em sua performance na escrita e na compreensão de histórias. Não foi identificada, até o momento, diferença entre escolas públicas e privadas, ou seja, houve impacto na maioria das crianças. No entanto, quanto maior o nível socioeconômico da família, e maior a frequência de hábitos de leitura/escrita dos pais, melhor foi o desempenho na avaliação.

Para a professora Rochele, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, um dos fatores que impactou nessa defasagem é que pais e crianças passaram a ler menos. “A redução de hábitos de leitura e escrita influencia diretamente no desenvolvimento cognitivo, socioemocional e educacional dos estudantes”, alerta a especialista. O estudo faz parte de um projeto nacional de teleneuropsicologia, coordenado pela pesquisadora, que busca fazer um mapeamento pós-pandêmico do desenvolvimento infantojuvenil e da aprendizagem escolar. Para a professora, as escolas precisam agir com programas de intervenção de redução de danos desde a Educação infantil, focando em um trabalho que estimule para hábitos de leitura.

Outro alerta da pesquisadora é para que as escolas diminuam as expectativas, pois ela acredita não ser possível recuperar todas as lacunas em um curto período de tempo. “Sabemos que há perdas de pelo menos três anos de aprendizagem. Quando há uma demanda maior do que aquela que é possível ofertar, o cérebro se desconecta do momento presente”, explica. Ela sugere que as escolas invistam em formação de pais, para que eles entendam o atual momento da escola e evitem cobranças. “As famílias também precisam ser orientadas para que retomem os hábitos de leitura e de estudos com os filhos, assim como diminuam o uso de telas e eletrônicos, quando forem abusivos”. Quanto ao trabalho pedagógico da escola, ela afirma que os professores não devem ter medo de mapear em que nível educacional essas crianças e adolescentes se encontram para que se possa intervir em pequenos grupos, trabalhando as dificuldades nos conteúdos específicos.

A vice-presidente da Fenep e conselheira do Conselho Nacional de Educação (CNE), Amábile Pacios, acredita que a faixa-etária mais afetada pela pandemia foi a de crianças em processo de alfabetização. “Sabemos que algumas não tiveram contato com lápis e papel, nenhum tipo de escrita, outras aprenderam a escrever somente em caixa alta. É preocupante, porque é um aprendizado para o resto da vida”, pontua a educadora. Ela orienta que as escolas invistam em técnicas e práticas pedagógicas para recuperar essas defasagens. Outro grupo de estudantes que também merece atenção, segundo Amábile, são os egressos do Ensino Médio. “Esses jovens tiveram os dois últimos anos muito afetados pela falta da aula presencial. As universidades terão que ofertar programas de formação para recuperar essas perdas”, pontua.

Amábile acredita que as escolas particulares têm condições de suprir essas lacunas porque são rápidas em fazer diagnóstico e atuar em cima das defasagens. “Temos visto estratégias interessantes como escolas oferecendo aulas no contraturno ou até no próprio turno, trabalhando de forma paralela. O Conselho Nacional de Educação vai ouvir essas escolas e acredito que vamos nos surpreender com a criatividade”, antecipa a dirigente.

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