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“Setor de serviços precisará de mais um ou dois anos para se recuperar da crise”

Economista analisa situação das instituições de ensino diante do cenário econômico previsto para o próximo ano

O setor educacional foi um dos mais impactados pela pandemia. A mudança na oferta do serviço, de presencial para remota, trouxe não só desafios para alunos e famílias, mas também custos para as instituições, que ainda pesam no orçamento. Para o doutor em economia e economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), André Nunes, as instituições de ensino precisarão de mais um ou dois anos para consolidar uma recuperação. “Embora nesse ano de 2022 podemos verificar o pleno reestabelecimento do setor, quando o nível de atividade voltou ao patamar pré-pandemia, a estrutura de custos continua impactada e as margens de operação seguem debilitadas”, analisa o especialista.

Nesta entrevista concedida ao portal da FENEP, Nunes comenta sobre o impacto do resultado das eleições na economia, afirma que os custos do setor de serviços continuarão subindo em 2023 e faz uma projeção do INPC para o próximo ano. O economista ainda comenta sobre a inadimplência no setor de serviços. “Acredito que estamos próximo do período de pico de inadimplência, o que significa que o cenário pode piorar um pouca até o final do ano, mas a expectativa para 2023 é mais positiva”, antecipa. Confira trechos da entrevista:

 

Portal da FENEP  – O que se pode esperar da economia para 2023? Como o resultado das eleições poderá impactar?

André Nunes – Independentemente de quem vença o pleito de outubro, a aprovação do orçamento federal para 2023 será um desafio importante, evento no qual o mercado avaliará como sinalização para qual rumo o país tenderá para os próximos anos. Temas como a continuidade do Teto de Gastos, a manutenção do Auxílio Brasil no nível atual e o retorno das alíquotas dos impostos federais sobre combustíveis são difíceis de conciliar com uma necessidade de contenção de despesas.

Além disso, existirá pressão por aumento de gastos com pessoal, uma vez que diversas categorias reivindicam reajustes desde o ano passado. Atender, mesmo que parcialmente essas reinvindicações, tem como condição necessária a continuidade da agenda de reformas estruturais, em especial a Reforma Administrativa. Também é importante ter claro que o Teto de Gastos tem sido a âncora fiscal desde a crise de 2015 e 2016 e a sua repactuação é importante para uma expectativa positiva com relação à trajetória da relação dívida/PIB e das taxas de juros de longo prazo.

Pelo lado da atividade econômica, as taxas de juros devem começar o ano ainda muito elevadas, e os efeitos das medidas de estímulo adotadas em 2022 perderão força. Por isso, espero uma desaceleração no crescimento que deve ser próximo de 3% em 2022, para um ritmo de 1,0%. Caso a União opte por não seguir na trajetória de responsabilidade com as contas públicas, os efeitos de uma política fiscal de cunho mais populista terão seus impactos negativos sobre taxa de juros e de câmbio e de investimentos, tudo isso resultando em um menor crescimento nos anos subsequentes.

Portal da FENEP  – Como o senhor vê o setor de serviços, no qual está incluído o ensino privado, para 2023?

André Nunes – O setor de serviços foi o mais impactado pela pandemia, alguns ramos foram os primeiros a parar as atividades e os últimos a retornar para a normalidade. Além disso, tiveram outros ramos, como a educação, que tiveram que promover uma rápida e profunda adaptação, inclusive realizando gastos para adequação das suas estruturas. Foi um momento em que os gestores precisaram realizar investimentos para uma nova forma de operar ao mesmo tempo em que precisavam manter estruturas para quando as atividades voltassem ao normal.

Apenas nesse ano de 2022 podemos verificar o pleno reestabelecimento do setor, quando o nível de atividade voltou ao patamar pré-pandemia. Porém, a estrutura de custos continua impactada e as margens de operação seguem debilitadas, e acredito que as empresas precisarão de mais um ou dois anos para consolidar uma recuperação.

Portal da FENEP  – Na sua avaliação, qual deve ser o reajuste médio na área de serviços, para 2023?

André Nunes – Os preços dos serviços são muito afetados pela dinâmica dos salários, que por sua vez apresentam um grande grau de indexação à inflação passada. Dessa forma, é possível projetar que os custos do setor de serviços devem continuar subindo em 2023, mesmo com um índice geral da economia rodando em patamares muito mais baixos.

O processo inflacionário que tivemos nos últimos dois anos foi bastante concentrado no setor de bens. E, ainda temos um desajuste de preços relativos na economia, em que os bens ficaram relativamente mais caros do que os serviços. Agora estamos vivenciando um processo contrário, os efeitos da reabertura começam a impulsionar o crescimento da economia, e os serviços começam a perceber aumento na demanda, bem como a necessidade de readequar os preços de venda.

No que tange ao custo com pessoal, que, em geral, é o maior custo das empresas do setor, sabemos que grande parte das instituições possuem data base entre janeiro e abril. Nesse caso, a expectativa para o INPC é cadente: a projeção é de um INPC acumulado em 12 meses na ordem de 6,67% em fevereiro, caindo para 5,39% em março. É importante lembrar que a inflação de 2022 foi impactada por eventos climáticos e geopolíticos que afetaram profundamente o preço dos alimentos e da energia, o que não se espera para o ano que vem.

Portal da FENEP – A inadimplência é uma preocupação constante dos gestores do ensino privado. Como o senhor vê o poder de consumo das famílias e o problema do endividamento para o próximo ano?

André Nunes – Acredito que estamos próximo do período de pico de inadimplência, o que significa que o cenário pode piorar um pouca até o final do ano, mas a expectativa para 2023 é mais positiva. Em junho, por exemplo, já tivemos uma inflexão na inadimplência do crédito consignado para o empregado do setor privado, que caiu de 4,84% da carteira em maio para 4,52% no final de junho, o último dado disponível. Nas modalidades que tiveram aumento da inadimplência, este tem desacelerado, como é o caso do crédito pessoal não consignado, aquisição de veículos e cheque especial. No agregado, a inadimplência das pessoas físicas caiu de 3,59% em maio para 5,52% em junho.

A nossa visão mais positiva decorre da melhora no emprego formal. No último ano, a geração de empregos tem ocorrido mais intensamente no mercado formal: dos 8 milhões de ocupações criadas, foram 5,1 milhões de vagas formais e 2,9 milhões de informais. No agregado, a ocupação já superou o nível pré-pandemia em 3,2 milhões de vagas. Além disso, os números do IBGE já apontam um avanço na renda real habitualmente recebida pelos trabalhadores, que avançou, no trimestre até julho de 2022, 4,0% em relação ao final de 2021. Por fim, a desaceleração esperada para a inflação deve provocar alguma descompressão dos orçamentos das famílias.

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