Bruno Eizerik: É possível sonhar?

Estadão | Fausto Macedo - 29 de outubro - https://bit.ly/3jN1229

Vivemos uma época especial no ano.  No último 12 de outubro comemoramos o Dia da Criança, que são o futuro do nosso país. Logo em seguida, em 15 de outubro, o Dia do Professor, agente essencial para a inevitável transformação que precisamos realizar. Em 12 de novembro celebramos o Dia do Diretor de Escola, personagem fundamental em nossas instituições, pois sem comando e gestão, não chegamos a lugar nenhum. Se não soubermos para onde estamos indo, e guiar é a função do comandante da escola, qualquer caminho será errado.

Nestas datas comemorativas encontramos os atores do nosso futuro. Precisamos, agora, olhar para o futuro, mesmo que o ex-ministro Pedro Malan, autor da incrível frase: “no Brasil, até o passado é incerto”, aponte a incerteza em relação ao que já ocorreu. O certo(?) é que vivemos em um mundo de narrativas e não de fatos. Entretanto, no que diz respeito à educação, não podemos alterar o passado e, como nação, devemos nos envergonhar do que fizemos até agora.

Não fazendo um exercício de futurologia, mas me permitindo fechar os olhos e sonhar um sonho acordado, onde eu possa comandar o que acontece em meus pensamentos, vou imaginar o futuro, pois o primeiro passo para conseguirmos alguma coisa é sonhar com o que queremos.

No meu futuro utópico, o Brasil, um país com as riquezas naturais que temos, é um lugar melhor para viver. E como se deu esta transformação? Foi simples, colocamos em primeiríssimo lugar, como condição para todo o resto – e a palavra resto aqui significa muita coisa – uma educação de qualidade para nossas crianças e jovens. Não tenho a menor dúvida de que a consequência imediata de sermos um país voltado para a educação será uma menor desigualdade social e o fim dos problemas que hoje vivemos nas áreas da saúde e de segurança. Resolveríamos este trinômio que aparece de dois em dois anos em época de eleição: educação, saúde e segurança, nas mais diversas ordens.  A educação como condição para todas as demais questões nos fará finalmente assumir o protagonismo que queremos como nação.

Abro os olhos e me pergunto por que até hoje (lembrando que ano que vem completaremos 400 anos da declaração de Independência do Brasil do Império Português), a educação não foi vista como condição básica para o desenvolvimento do país. Talvez a resposta da minha pergunta venha das sábias palavras de Nelson Mandela, que do alto de sua sabedoria, de quem lutou uma guerra desigual, disse: “a Educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”. Junto com esta frase, mais uma construção brilhante do professor Darcy Ribeiro, que olhando nas entranhas do nosso país, em um momento iluminado disse: “a crise na educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”.

Em resumo, não importa por qual governo tenhamos passado desde o Império até a República, e mais recentemente até pela “pátria educadora”, o fato é que não tivemos efetivamente a educação como premissa, pré-requisito, para todas as ações nacionais. E já está mais do que na hora de isto acontecer. Se não houver uma Política de Estado para Educação, independente de Lulistas e Bolsonaristas (como precisamos de caudilhos!) ou da tão sonhada terceira via, continuaremos a viver na miséria, adiando o sonho de construir um país melhor.

Vivemos tempos incríveis em que a tecnologia, sempre que usada como meio e não como um fim, nos dá a possibilidade de democratizarmos a educação. Vivemos um tempo em que frases como “dinheiro público é para educação pública” começam a não ter mais sentido, pois o dinheiro público deve ser para educação de qualidade, independente da mantenedora. Tempos em que as parcerias público-privadas passam a ser vistas como solução de muitos dos nossos problemas estruturais da educação.

Vivemos tempos “líquidos”, como diria Zygmunt Bauman, porque, assim como a água, tudo muda muito rapidamente. “Na sociedade contemporânea, nada é feito para durar”. Me dou o direito de complementar a frase do professor dizendo que certo, nestes tempos líquidos, é que o único caminho para podermos transformar nosso país em uma nação é a educação. Como diria o filosofo estoico grego Epiteto, que dedicou sua vida a responder duas perguntas: como viver uma vida plena, uma vida feliz? Como ser uma pessoa com boas qualidades morais? “A verdade é que só a educação liberta”. Se nos é permitido sonhar, já sabemos que o caminho a ser seguido passa pela educação.

Bruno Eizerik é presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (FENEP)

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