Em berço esplêndido

Na segunda quinzena de março de 2020 o país mudou para todos os brasileiros. Para a grande maioria que trabalha na e para a iniciativa privada a mudança foi brusca, tudo foi paralisado, negócios e contratos revisados ou cancelados, lojas fechadas, profissionais liberais com suas atividades revistas e suspensas – tudo por tempo indeterminado. Nesse período, o governo federal propôs leis com a intenção de minimizar o prejuízo nas empresas a fim de evitar demissão, suspensão de contrato de trabalho, redução de jornada e de salário. Criou-se um fundo financeiro para aportar a folha de pagamento; contudo, pouquíssimas empresas tiveram acesso. Criou-se também auxílio para o mercado informal, no valor de R$600,00. Prorrogaram o pagamento de impostos federais e fim, não houve mais ações em prol dos prejuízos causados pela pandemia.

Nos primeiros 30 dias, as pessoas entenderam o significado do isolamento, mas aos poucos foram voltando para as ruas. Com a pressão sobre os governantes, foram liberados comércios e serviços, com bastante controle sanitário e normas de segurança. Porém, o mercado foi interrompido, muitos negócios parados e sem previsão de volta, o custo econômico ainda é imensurável, sem contar a vida, já temos no país quase 40 mil óbitos. É difícil traçar o sentimento e a expectativa dos brasileiros com o cenário atual, onde o isolamento social é a melhor saída, mas nem todos têm a oportunidade de acatar. Com isso, crescem os problemas financeiros nas famílias e destaco ainda outro aspecto, a lida com as aulas remotas dos filhos.

Alguns setores foram muito impactados e sem previsão de volta, como o turismo e as instituições de ensino. As escolas públicas e privadas precisam ser levadas a sério, especialmente neste momento que vivemos. Como será a escola pós-pandemia? Os governos precisam levantar esse debate, os impactos, a configuração de uma nova forma de convivência. Teremos que ser criativos na formulação de políticas para o setor. Sinto falta do tema “Educação” levada com seriedade, afinal de contas, a escola particular brasileira atende 15 milhões de alunos, sendo 9 milhões no ensino fundamental e 2,5 milhões na educação infantil.

É imprescindível destacar que a instituição de ensino privada sofreu uma imensa pressão por parte dos políticos estaduais, Procons, ministérios públicos, para dar descontos, sendo inclusive criados leis estaduais, absolutamente inconstitucionais, apenas por populismo. Não estamos deixando de entender a situação. Propomos o diálogo entre a escola e a família desde o começo. Os descontos estão sendo concedidos! Contudo, juntando esta pressão com a crise econômica sem precedentes, muitas escolas particulares correm sérios riscos de fechar as portas, aumentando o desemprego – que já é alto, e o pior, piorando a formação das nossas crianças e jovens, que serão tão necessários para o Brasil no futuro próximo.

Vejamos, os políticos, cargos de confiança, funcionários públicos aposentados dos três poderes não tiveram redução salarial, de jornada de trabalho ou mesmo suspensão de contratos. A mesma linha segue para os professores e funcionários da ativa e inativos das universidades estaduais e federais, dos Institutos Federais, das escolas estaduais e municipais, das secretarias de todos os poderes, os funcionários dos legislativos, municipais, estaduais e federal e seus respectivos legisladores. Estão todos em berço esplêndido. E nossos políticos já falam em aumento de impostos, pois caiu a arrecadação... A intenção é seguir em berço esplêndido.


* Ademar Batista Pereira é presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares - FENEP


Publicado no Estadão.

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