Por que a escola não é importante?

08 de junho de 2021 | 07h30
Estadão

 

Desde o início da pandemia, em março de 2020, as escolas públicas brasileiras estão fechadas e não vemos nenhuma mobilização da sociedade, ou mesmo dos pais dos estudantes, para que eles voltem à escola. Uma pesquisa recente mostrou que 46% dos brasileiros acham que a escola deve ficar fechada até o fim da pandemia. É claro que muitos ainda têm medo da doença. Mas, definitivamente, esta é apenas a justificativa da vez.

É preciso analisar este fenômeno particularmente brasileiro, pois não se repete em nenhum país do mundo, especialmente naqueles em que gostaríamos de nos espelhar pela qualidade de vida e educação.Na educação básica brasileira, 47% das crianças chegam ao 5º ano sem saber ler, ou seja, são analfabetos funcionais. Isto se verifica há mais de 30 anos. Portanto, os pais que não foram devidamente alfabetizados agora têm filhos na escola.

Segundo levantamento do Fórum Econômico Mundial em 2020, ocupamos o 60º posto no ranking de mobilidade social. Os que ocupam os primeiros lugares são os países melhores colocados no Pisa. Poderíamos analisar diversos outros indicadores, mas a conclusão é simples. Para boa parte dos estudantes da instituição pública de ensino brasileira, a escola em nada contribuiu  para a vida de seus pais em termos de melhores oportunidades. Aí está a explicação para a pouca importância que os brasileiros atribuem à escola. É um retrato perverso das desigualdades entre o ensino público e privado, um abismo social que o fechamento das escolas e o ensino a distância estão intensificando.

Quando se trata da escola particular brasileira, a situação é notavelmente melhor. As escolas particulares atendem 15 milhões de alunos, sendo 6 milhões no ensino superior e 9 milhões na educação básica. Considerando, para cada estudante, dois adultos, temos mais de 45 milhões de pessoas de alguma forma ligadas à escola, o que equivale à população da Espanha.

Comparando resultados do Pisa 2018 para Brasil e Espanha, a educação privada brasileira está mais bem posicionada do que a educação da Espanha. Em leitura, a Espanha tem 486 pontos, portanto, em 27º lugar. Já a escola particular brasileira atingiu 510 pontos e o 11º lugar no ranking.

Em matemática a Espanha está ligeiramente melhor, com 481 pontos, ocupando o 35º ligar enquanto que a escola particular brasileira, com 473 pontos, ocupa o 39º lugar. Em ciências a Espanha tem 483 pontos, ocupa o 32º lugar no ranking, enquanto o ensino particular, com 495 pontos, ocupa a 24ª colocação.

Como os brasileiros não percebem a importância da escola, o medo justificado do contágio levando ao descarte da hipótese de retorno às aulas sem mais questionamentos. Os governantes sabiamente se aproveitam disso, pois vivem de popularidade e não de projeto de país. Acomodam-se, não cumprem suas prerrogativas de garantir um ensino de qualidade e, é claro, culpam a sociedade. Assim, vamos mantendo o Brasil na miséria intelectual, econômica e social.


* Ademar Batista Pereira, presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (FENEP)

Publicado no Estadão em   08 de junho de 2021

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