Reabertura das escolas: complexa e dispendiosa, mas necessária

19 de setembro de 2020 | 14h30

Jacir J. Venturi

Hodiernamente, nenhum tema é tão candente quanto ao retorno às aulas presenciais, que envolve 48 milhões de estudantes da Educação Básica e mais 8,4 milhões do Ensino Superior. Como tudo o que se refere à Covid-19, há polarizações exacerbadas, estatísticas para todos os gostos e as notícias falsas que se espalham como ervas daninhas. E quando as versões contrariam a ciência, pior para a ciência.

 O retorno de muitas áreas e atividades à quase normalidade está num ritmo frenético demais em todo o país - muitas vezes à revelia das leis e das autoridades -, e a expressão “fique em casa” passou a ser substituída por “ninguém aguenta mais”. E aí mora o problema: esse esgarçamento desmesurado - tipo fadiga de quarentena - está levando a parte da população à irresponsabilidade: desde os rolês e churrascos às barras, raves e praias, sem os cuidados de distanciamento e uso de máscaras. Viralizou um meme de uma foto em uma de nossas praias coalhada de guarda-sóis, encimada por uma pergunta: e aqui não há alunos, nem professores?

Tais aglomerações - fontes incontestes de contágio - devem ser repudiadas para uma redução tão almejada das curvas de contágio e de mortes, bem como para o retorno pleno dos serviços, comércio e indústria (e assim alavancar o emprego, a economia e até o orçamento público ) e, tão necessário quanto, para a reabertura das escolas ao ensino presencial. Todo o problema que se queira resolver deve ser enfrentado, e estamos apenas tangenciando, postergando, feito um tear de Penépole, em relação ao tema reinício das aulas presenciais. É uma ilusão esperar pelas condições ideais, uma vez que esse vírus capiroto já sinalizou que não vai dar esta canja tão cedo.

E sempre oportunas são as palavras de Roberto Campos: “o debate honesto pressupõe conhecimento da causa”. Há excessivas tergiversações nas redes sociais e, na parte da mídia, uma imbricação de temas e argumentos fúteis. Até mesmo decisões judiciais extremadas, como no Rio de Janeiro, onde se concedeu liminar ao Sindicato dos Professores para proibir o retorno às aulas até que todos os alunos e docentes eliminados vacinados. O bom senso prevaleceu com uma suspensão desta liminar, depois de vários dias de embates nos tribunais. Os professores devem fazer parte da solução e não do problema - é o que pensa a maioria de nós -, numa atitude de cidadania e comprometimento com a boa educação.

“Estamos condenando esta geração de crianças e jovens. Os riscos são pouquíssimos ”-, defende com ardor a psicóloga Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna. Nesta semana, OMS, Unicef ​​e Unesco fizeram, no mesmo sentido, um apelo aos governos para que coloquem a abertura de escolas como prioridade. Segundo as entidades, ainda não existem evidências suficientes para declarar que foi a reabertura de escolas que eventualmente desagravou a transmissão da Covid-19 nas comunidades que a realizaram, quando as medidas de proteção e de saúde foram devidamente adotadas.

Há dois meses, como escolas privadas de Manaus, retornaram às suas atividades presenciais e nenhum caso de registro de infecção pelo coronavírus. Com bom planejamento, seguir os 6 eixos principais - sobejamente conhecidos e exequíveis - com base nos padrões internacionais. O reinício deu-se gradual e não obrigatório, com turmas de 4 alunos e hoje com cerca de 15. É justificável o recebimento, pois os pais foram estimulados desde o início da pandemia pelas exigidas e intensas campanhas pelo isolamento por parte da mídia e dos governos. Aos poucos, a parte do medo acaba se dissipando quando uma família visita a escola e a presença de um ambiente com uma rotina que segue todas as normas recomendadas. E regras de ouro existem para bons resultados na reabertura: retorno gradual,

Todavia, no Brasil, os 9 estados ainda estão sem prazo algum para o reinício das aulas. Nos demais, a retomada é escalonada e cuidadosa - o que se faz mister. Em vários países da Europa, as escolas foram liberadas antes do comércio: naqueles pertencentes à OCDE como instituições de ensino permaneceram fechadas por 98 dias em média, com destaque para a França, 56 dias, e a Alemanha, 68. No Brasil, já vivemos mais que o dobro disso, tendo já sido ultrapassada a marca dos 200 dias. Estamos num dos lugares mais altos do pódio, juntamente com o Paraguai. O Uruguai protocolos de volta às aulas assim que a curva de infectados começou a apresentar redução. Manter as escolas fechadas por tanto tempo tem elevados impactos negativos, entre o aumento significativo das evasões e o comprometimento das condições socioemocionais dos discentes.

Por outro lado, neste momento, uma abertura ampla seria uma insanidade, pois a média móvel é ainda alta, mesmo que em tendência de desaceleração. Os estados que já retornaram ou agendaram o reinício levaram em conta como condições imunológicas e o baixo índice de transmissibilidade nas regiões liberadas, sendo priorizadas as escolas mais bem estruturadas para atendimento às condições de biossegurança. E se houver unidades escolares com casos de contágio? Seguem-se os protocolos dos agentes de saúde e os isolamentos pontuais e cirúrgicos. Afinal, não foi assim que agiram alguns países, como França e Israel, ou mesmo em escolas públicas do Amazonas?

Se é importante que sejam incluídos os prazos para a abertura, mais que isso é necessário definir-se o "como abrir", tema este que se debatedor do Deveria. Essa tarefa exigirá semanas de um bom planejamento organizacional e financeiro, bem como da complexa e dispendiosa reconfiguração do espaço físico e implementação das normas sanitárias e de biossegurança. Tudo será diferente, se comparado com o retorno após as tradicionais férias de verão, sempre festivo, com abraços efusivos e aquela algaravia que soa como música aos ouvidos dos educadores.

Agora estamos vivenciando um período excepcional de afastamento de 6 meses, do qual advêm não só alunos, mas também professores e funcionários que passaram ou ainda estão passando por experiências negativas, até mesmo traumáticas, como insegurança, descontrole emocional, perda de renda, óbitos de familiares ou conhecidos. A ênfase das primeiras semanas é o acolhimento, o vínculo afetivo, correção de disparidades de aprendizagem, equalização dos conteúdos de cada componente curricular. O discente vai encontrar outra escola, seja antes, durante ou após as aulas. Não menos fácil será estabelecer a divisão entre os conteúdos que serão presenciais ou remotos, uma vez que não será viável um retorno pleno no curto e médio prazo. Mais do que nunca, escola e família devem ser parceiras; mais do que nunca,

* Jacir J. Venturi, professor, foi diretor de escolas públicas e privadas, e docente da UFPR, PUCPR e Universidade Positivo

Fonte: Estadão

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