Saúde mental dos estudantes exige atenção dos educadores

Além da preocupação em recuperar as lacunas de aprendizagem deixadas pela pandemia, outro assunto tem preocupado gestores, coordenadores pedagógicos e professores: a saúde mental dos estudantes. Desmotivação, desinteresse pelos estudos, crises de ansiedade e depressão estão entre os problemas identificados, desde o retorno às aulas presenciais no início do ano.

Diversos estudos estão sendo feitos e já evidenciam o que está ocorrendo no ambiente escolar. Recentemente, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) divulgou resultado de uma enquete feita com 7,7 mil estudantes, sendo a maioria adolescentes entre 15 e 19 anos, que revelou que três em cada dez apresentam sintomas de ansiedade.

Uma das perguntas era sobre o sentimento que melhor descreveria como o respondente estava se sentindo nos últimos dias: 35% dos entrevistados disseram “ansiosas(os)”, 14% se disseram “felizes”; 11%, “preocupadas(os) consigo”; 9%, “indiferentes”; e 8%, “deprimidas(os)”. Entre todos os respondentes, metade diz que sentiu necessidade de pedir ajuda em relação à saúde mental, mas 40% deles não recorreram a ninguém. Outros 20% buscaram amigas(os); 15%, psicólogas(os) ou psiquiatras; 11% recorreram à família e 8%, a namoradas(os). Somente 2% procuraram professores e outros 2%, profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde.

Entre os motivos destacados por aqueles que não buscaram ajuda, estão a insegurança (29%), a desistência de buscar ajuda (26%), o medo de julgamento (17%), ou a falta de informação sobre quem procurar (10%).

“Os resultados mostram que é fundamental que famílias e profissionais que trabalham com adolescentes ampliem suas habilidades para fazer uma escuta qualificada e sem julgamentos, promover o acolhimento e encaminhar adolescentes para os serviços adequados disponíveis. Essas são as primeiras pessoas de confiança buscadas por adolescentes e jovens em temas de saúde mental, mas é essencial que eles conheçam os fluxos de atendimento psicossocial em seus municípios, saber a quem buscar e aonde ir. É importante que os municípios estejam preparados para receber essas demandas intersetorialmente”, defende Gabriela Mora, oficial do Programa de Cidadania dos Adolescentes do UNICEF no Brasil.

Para o psicólogo, doutorando em Educação e presidente da Comissão de Educação do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul, Vinicius Pasqualin, a responsabilidade pela recuperação emocional dos estudantes não é somente da escola, mas ela pode fazer a sua parte, em parceria com a família. Ele também defende que as instituições de ensino promovam o máximo possível de espaços de escuta e de conversa com os alunos. “As crianças e os adolescentes apresentam dificuldades em identificar e nomear o que estão sentindo, quanto mais espaços de escuta e conversa tiver, melhor”, acredita Pasqualin.

Ele explica que a ansiedade é legitima porque envolve a fantasia desses estudantes: “existe uma pressão para passar de ano, recuperar os conteúdos, para estar bem nesse retorno”. Por isso, a importância de se fazer um trabalho com as famílias também: “precisamos mostrar para os pais que não se irá recuperar todo o aprendizado da noite para o dia e orientá-las a como auxiliar os alunos nessa recuperação. Esse diálogo precisa ser feito com as famílias para acolher essas dificuldades”, orienta.

Para Pasqualin o momento exige calma dos educadores, famílias e estudantes para entender o que está acontecendo. “Nosso psicológico se desenvolve quando nos encontramos com o outro, então a escola é um espaço para o desenvolvimento da saúde mental. Por dois anos os alunos não tiveram esse contato, essa oportunidade de se ver através do outro, de se relacionar, por isso, acabamos tendo essa perda emocional”, justifica.

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