Um inimigo visível

Quando completamos um ano de escolas fechadas, lutando contra um inimigo invisível que ceifou milhares de vidas e começamos a enxergar uma luz no fim do túnel, com a possibilidade de reabertura, surge o Governo Federal com a proposta de homeschooling. Para quem não conhece o termo, adaptado do inglês, significa “ensine seu filho em casa, ele não precisa da escola”.

É difícil de acreditar que este projeto tenha sido gestado pelo Governo Federal e proposto pelo Ministério da Educação. Certamente, temos outros assuntos mais importantes para tratar no campo educacional em nosso país. Sim, vou repetir: o governo, que deveria ser o maior interessado em educar e ensinar as nossas crianças está propondo que elas não precisam ir à escola, podem estudar em casa. Não é brincadeira, a proposta é que família substitua a escola na tarefa de ensinar. Com o homeschooling estaríamos retrocedendo à forma de ensinar do século XV.

Não vou nem entrar no mérito se a família, sem o apoio de especialistas, pode ou não ensinar seus filhos, porque é obvio que não. As relações da criança com seus pais não permitem que se crie um ambiente propício para o ensino e a aprendizagem. A relação é muito diferente daquela que se estabelece entre alunos e professores. O aluno aprende na escola e em casa, os dois ambientes são complementares.

Tirando a parte da aprendizagem, como se isto fosse possível, vamos avaliar o desenvolvimento socioemocional dos pequenos. Aí, segundo Piaget, o desastre é ainda maior. Na escola, a criança apende a conviver, está entre seus iguais. Aprende que existem crianças diferentes dela, com outros valores, com outra formação, que pensa diferente e isto ajuda em seu crescimento enquanto indivíduo. Na escola, as crianças aprendem que existe a diversidade, que o mundo não se resume a sua família. Tirar a escola da criança é privá-la de uma formação completa.

Recente pesquisa comparou alunos que cursaram a pré-escola com quem ingressou diretamente no Ensino Fundamental. A conclusão foi de que quem fez pelo menos um ano de pré-escola chegou ao primeiro ano do Fundamental mais responsável, cooperativo e assertivo.

Qual o real motivo de privar nossas crianças de irem à escola? Será que é por causa do resultado que a rede pública vem tendo nos últimos exames internacionais? Será que é a linha pedagógica que escola pública vem adotando nos últimos anos? Parece que o governo, na briga da escola com ou sem partido, simplesmente quer decretar que não precisamos mais levar nossas crianças à escola. Decisão simplista e equivocada. Pior que uma escola com deficiências, mas que podem ser corrigidas, é não ter escola para nossas crianças.


* Bruno Eizerik, Presidente do SINEPE/RS

Fonte: Correio do Povo



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